Crítica do espetáculo A CORTINA DA BABÁ

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A Cortina da Babá – do simples ao simplismo

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

O Grupo Sobrevento tem longa atuação no teatro de animação brasileiro. São mais de vinte anos de estrada, quatorze espetáculos no repertório, sendo que A cortina da babá veio participar do 7.º FITA. Trata-se da primeira experiência do grupo com o teatro de sombras. Inclusive, os integrantes do grupo participaram de uma oficina de criação com um “mestre das sombras”, o chinês Liang Jun, diretor da Cia. de Arte Popular de Shaanxi.

Depois dessa entrada no mundo do teatro de sombras, o grupo resolveu montar um espetáculo baseado num conto infantil de Virgínia Woolf. Destinado ao público infantil, a realização do Sobrevento levanta algumas questões, entre elas ― e o grupo igualmente se pergunta ― como é possível conseguir fazer um espetáculo destinado às crianças, mas que também consiga agradar aos adultos? É um dilema que perpassa o pensamento de todo realizador teatral que pense o teatro destinado às crianças seriamente, ou seja, a grande questão: com não infantilizar demasiadamente um espetáculo proposto ao público infantil, sempre ávido e maravilhado pelo aspecto lúdico da cena? A pergunta foi feita, no entanto não foi resolvida pelo grupo.

Primeiro porque, mesmo que A cortina da babá tenha sido baseado num conto de Virgínia Woolf, o que foi colocado no palco é um fiapo de narrativa. A babá está bordando uma cortina. Ela dorme e o mundo ali bordado ganha vida através da manipulação de sombras acompanhadas por um ator que interpreta um menino. Segundo porque mais uma vez se opta pelo clima estranhamente dualista, maniqueísta, colocando a babá no mesmo patamar que os habituais contos de fada em que impera um mal a ser vencido e um bem a ser conquistado.

O grupo tenta a prática de diversas técnicas do teatro de sombras em uma sucessão de cenas engraçadinhas, com animaizinhos, pequenas gags absolutamente infantizadas, o que leva o espetáculo a uma estética muito próxima dos teletubbies, ou seja, repetitiva, superficial, algo que parece desconfiar da esperteza das crianças, pois aposta demais no bonitinho, no legalzinho, no poeticozinho, assim mesmo leitor, tudo muito no diminutivo mesmo.

Além disso a presença do ator que faz o papel da criança é desastrosa, pois ele interpreta o clichê do clichê de uma criança: olhares, gestos e movimentos, todos calcados num esteriótipo de criança abobadinha, assustadinha e desejosa de outro mundo. Sua interação com as sombras não acontece; parece mais um espectador de televisão numa sala. Aqui cabe um reparo, pois o cenário é belíssimo e criativo, já que oferece uma infinidade de recursos para se entrar num mundo poético e inventivo; no entanto, foi mal utilizado. A verdade é que não tem lá muita função a presença do ator-menino na cena. Sua presença é totalmente dispensável, já que aparece como um borrão de personagem e ainda atrapalha a visibilidade da manipulação das sombras.

            Trata-se de um espetáculo que não conseguiu transpor a obviedade e também não conseguiu sair daquela fronteira dos diminutivos bonitinho, engraçadinho, legalzinho, simpaticozinho, muito comum em espetáculos infantis descuidados. Pode convencer crianças muito pequenas que ainda se fascinam com gags de bichinhos atrapalhados. No entanto, mais do que isso, A cortina da babá não consegue se aproximar do público.

baba2FOTOS DE MARCO VASQUES

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