Crítica do espetáculo OTELO

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“Otelo”

 – um encontro inventivo com Shakespeare

                                                                                  Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

            Veio do Chile um dos melhores espetáculos que já aportou em Florianópolis: “Otelo”, da Cia. Viaje Inmóvil. A companhia nasceu em 2005 e possui, até agora, sete espetáculos no repertório, todos possuindo um denominador comum: o uso de marionetes, a animação de objetos e a presença de cenografia móvel.

            Apresentando-se na segunda noite do 7.º FITA, no Teatro Álvaro de Carvalho, “Otelo” é um primor técnico e artístico. Um espetáculo irretocável, porque conseguiu reler a tragédia shakespeariana em tons de melodrama, brincando com a linguagem da televisão e do cinema de cunho mais popular. A adaptação e a direção são de Christián Ortega. Teresita Lacobelli e Jaime Lorca são os atores, que se desdobram em cinco personagens: Otelo, Desdêmona e Cássio, bonecos manipulados, e Yago e Emília interpretados por Teresita e Jaime, que ainda sugerem mais dois personagens importantes, embora muito sutis: um casal anônimo que vê, por meio da televisão, uma adaptação novelística e popular da peça “Otelo”.

Diálogos rápidos, ação, suspense, tensão, humor, terror e violência equilibram-se nesta adaptação, que resolveu tirar a pretensa seriedade dada pelo tempo à obra de Shakespeare. O grupo optou por dar ao trabalho um tom popular, característica original da dramaturgia do bardo inglês, além de fazer algumas mudanças na peça original, retirando personagens e mudando o destino de outros, tudo para que o clima melodramático ficasse ainda mais concentrado e se efetivasse com uma originalidade incrivelmente criativa.

            A grande força desta adaptação de Otelo vem justamente da mobilidade dramatúrgica, técnica e inventiva que eles conseguiram levar à cena. Nada é engessado nessa viagem, nada fica imóvel, tudo se transforma, se adapta a outras linguagens, se espalha pelo palco e, ao mesmo tempo, consegue manter intacta a força destruidora do texto de Shakespeare. “Otelo” é uma dessas ousadias estéticas muito difícil de se conseguir, porque é construída sobre um paradoxo: ao mesmo tempo que parece se afastar da peça original mais se aproxima do seu cerne, mais a compreende por inteiro.

            Os atores Teresita Lacobelli e Jaime Lorca conduzem os espectadores ação a ação, numa partitura corporal, vocal e gestual inabalável e firme. A ambientação criada pela iluminação e a dramaturgia musical não são apêndices isolados ou mero comentário da cena. São estruturas orgânicas dentro de um cenário simples, marcado pelas cores preta, branca e vermelha, ressaltando os contrastes da montagem: a morte, a pureza, a paixão, o sangue, enfim, tudo se equilibra na montagem de “Otelo”. As manipulações dos bonecos e dos objetos cênicos são precisas, irônicas e perpassadas constantemente pelo uso da metalinguagem, característica típica do humor melodramático.

            Não estamos diante apenas de uma trama movida pela ambição e pelo ciúme, mas diante de um espetáculo vivo que dialoga com todas as questões do homem contemporâneo. Do humor sutil ao negro, da metalinguagem à linguagem, do pop ao erudito: tudo se vê em “Otelo”. Se há algo a lamentar é o fato de o trabalho ter tido apenas uma apresentação no festival e de ter sido diminuto o público que compareceu ao Teatro Álvaro de Carvalho. Porque todo o resto foi poesia.

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FOTOS DE MARCO VASQUES

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