Frankenstein, Medo de Quem?

O espetáculo Frankenstein – Medo de quem? também está se apresentado no 7º FITA. Fizemos esta crítica no período de sua estreia, em 2012.

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Dionisos Teatro e a experiência da teatralidade total

POR MARCO VASQUES E RUBENS DA CUNHA

Frankenstein, Medo de Quem?, o novo espetáculo da Dionisos Teatro, é um primor, é poesia em estado puro e é teatralidade total, ou seja, uma obra de arte contundente, provocadora e inteligente. Estamos diante de um trabalho benéfico à alma. Uma montagem que conseguiu o raro equilíbrio entre a poesia e a denúncia, o erudito e o popular; que é capaz de abarcar qualquer público sem perder seus subtextos, suas subjetividades. Frankenstein traz sobre si aquilo que fortalece a poesia: domínio técnico, profundidades e possibilidades múltiplas de leitura, tudo sob o manto de uma clara e surpreendente simplicidade. Aquela simplicidade da qual Alain Badiou tanto explora na formulação das suas ideias-teatro, no livro “Pequeno Manual da Inestética”.

Livremente baseado no clássico “Frankenstein ou o Prometeu moderno”, de Mary Shelley, a peça conta com a direção de Osvaldo Gabrieli, um dos mais respeitados e premiados diretores do teatro brasileiro. Gabrieli é o fundador da mítica companhia XPTO e trouxe para a Dionisos Teatro sua vasta experiência, que unida à longa trajetória da companhia, uma das mais bem estruturadas de Santa Catarina, resultou num dos melhores espetáculos que estrearam em 2011 em nosso estado.

Ainda que a peça seja uma adaptação do clássico de Mary Shelley, a abordagem e os recortes são certeiros. Porque a criatura criada pelo cientista Victor não é dotada de maldade e pode muito bem funcionar como metáfora do nascimento. Nesta mesma linha estaria o personagem Joseph K., do livro “O Processo”. A professora Clêuma de Carvalho Magalhães, ao comparar o romance com o filme “Frankenstein”, dirigido por Kenneth Branagh em 1994, parece ter entrado no cerne da questão: “A problemática condição do monstro como um ser de fronteira é determinada principalmente pela negação de sua aceitação por parte da sociedade. Condenado à exclusão, o monstro conhece apenas o ódio, a repulsa, o medo e o desprezo. O seu comportamento agressivo é resultante dessa situação”.

Frankenstein, Medo de Quem? traz justamente essa questão do deslocamento, da estranheza, da diferença para a cena. E Gabrieli extraiu dos quatro atores um resultado excepcional. Andréia Malena Rocha, Eduardo Campos e Clarice Steil Siewert trabalham há dez anos juntos, ou seja, há entre eles uma intimidade visível. Eles parecem que, ao subir ao palco, adentraram numa grande festa, num grande carnaval em que só há lugar para o erótico, o prazer, a dança-música, isto é, o dionisíaco nitzschiano em estado puro.

No entanto, a nenhum desses atores coube o personagem-título, mas justamente ao mais jovem no grupo. Gabrieli percebeu esse detalhe e deu a Vinícius Ferreira a possibilidade de atuar com a carga da estranheza, do assumir-se caçula, do chegado depois. É um detalhe sutil, mas que acrescenta grandeza ao trabalho do diretor e do grupo. Sobretudo porque a atuação de Ferreira é irretocável.

A iluminação, o cenário e o figurino são expressionistas e aclimatam o ambiente para a tensão gótica proposta. Fica evidente a busca de referência em filmes como “O Gabinete do Dr. Caligari”, “Nosferatu” e “M., O Vampiro de Dusseldorf” entre outros. O uso surpreendente da música, sobretudo no caso do personagem do Frankenstein, que traz no peito um acordeon que metaforiza ora o seu coração, ora os seus pulmões. O instrumento é que mantém o personagem vivo. É a sua via de comunicação com os outros atores e com o público.

A presença do instrumento alarga muito a poética de cada cena. Por isso cabe observar a única cena, de toda a peça, que precisa ser reelaborada. Frankenstein disputa a sua amada com um soldado, com um rival. E ao perceber a sua estranheza, o seu fora do mundo, resolve entregar o acordeon ao seu rival e desistir de sua própria existência. Ora, essa cena é a cena capital do espetáculo, portanto o ator Vinícius Ferreira precisa alongá-la, silenciá-la e não simplesmente jogar a metáfora de toda sua carne no chão, como se fosse um nada qualquer.

O constante uso de máscaras, outra especialidade de Osvaldo Gabrieli, redimensiona todos os personagens, pois tudo se instaura num limite entre o humano e o monstruoso. E nos leva ao exercício dialético: quem é o monstro afinal? Apesar de perseguido, Frankenstein se revela mais ético do que os ditos sábios humanos. Esse aspecto, presente na obra original, ganha força na adaptação, sobretudo, nas cenas que satirizam a imprensa sensacionalista, aquela imprensa que cria monstros de acordo com os índices de audiência.

O uso do humor é outra ferramenta fundamental do trabalho. O humor acontece pela criação de uma linguagem própria, uma deturpação da língua portuguesa, que faz com que ao “traduzirmos” internamente, sejamos levados ao riso. Um riso trêmulo e que nos inquieta. O híbrido da leveza das cores presente no cenário com o tom soturno da iluminação está no tom exato. O espectador se diverte e se desespera. Distrai-se e se contrai. É um espetáculo para todas as idades, todas as classes e que, em certo sentido, infelizmente, reflete todas as sociedades.

Na crítica que fizemos à peça Entardecer, pensamos sobre os maiores predicados que acompanharam o teatro do século XX: pânico, crueldade, absurdo. Porém, há uma espécie de teatro que não se encaixa nesses tipos de predicado, que é o teatro produzido pela Dionisos. Frankenstein, Medo de Quem? aprofunda de maneira própria e original a linguagem poética que o grupo vem construindo a cada novo espetáculo. O público poderá conferir, em2012, a montagem da Dionisos Teatro que circulará por várias cidades catarinenses. Não percam!

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