Crítica do espetáculo O FLAUTISTA DE HAMELIN

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O flautista de Hamelin – um teatro de delicadeza

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

O conto popular “O flautista de Hamelin” é um desses clássicos cuja origem pode ter sido baseada em fatos reais acontecidos na cidade de Hamelin, na Alemanha, em torno de 1284, e que foi sendo recontado ao longo do tempo, até se tornar uma dessas histórias que permeiam o imaginário do mundo infantil e adulto.

A história é simples: o prefeito de uma cidade infestada por ratos faz um acordo com um flautista misterioso que consegue, por meio do encantamento de sua flauta, levar quase todos os ratos até à beira de um rio, onde morrem afogados, pois um dos ratos sobrevive e espalha a história para ratos de outras paragens. Ao retornar à cidade, o prefeito não cumpre o prometido e se nega a pagar o flautista, alegando que ele apenas tocou uma música. Em contrapartida, o flautista seduz todas as crianças com outra música e as leva para o mesmo rio, como acontece com os ratos, ficando sempre alguém para trás para falar e discorrer sobre o ocorrido. Dentre as inúmeras variações do conto, uma delas é a de que sobreviveu apenas uma criança cega, uma que se perdeu no caminho, outra surda que não ouviu a música e outra aleijada que não conseguia andar.

            Com o passar do tempo, o conto foi ganhando ares mais leves, principalmente depois da versão dos Irmãos Grimm, grandes atenuadores da violência das lendas e dos mitos populares. Em 1933, outro grande atenuador, Walt Disney, adaptou o conto num desenho animado em forma de musical. Nesta versão, o flautista liberta as crianças da sanha escravagista dos adultos da cidade, obviamente depois de não receber o pagamento; caso tivesse recebido, esse ato de “bondade” do flautista não teria acontecido.

            Quando um conto com quase mil anos é levado ao palco, surge sempre uma questão: como torná-lo ainda interessante? Como fazer com que o público vibre com uma história tão conhecida e tão adaptada? O grupo Trip – Teatro de Animação, de Rio do Sul, resolveu encarar o desafio e montou a sua versão de O flautista de Hamelin, conseguindo um resultado bastante favorável na empreitada. Primeiro porque não quis inventar a roda: ou seja, a direção de Paco Parício optou pela estética de um teatro popular, com uma carroça no meio do palco e duas atrizes/manipuladoras cujos figurinos remetem ao teatro mambembe da Idade Média. E é justamente nas atrizes Tati Mileide Danna e Thyara Cristina Nascimento que a surpresa e o encantamento dessa peça se sustentam. Carismáticas, engraçadas e expressivas, as atrizes assumem a narração da história, à moda medieval, e vão manipulando os personagens na bela carroça criada para representar a cidade de Hamelin e seus arredores. Vale ressaltar que a cenografia e os bonecos pensados por David Vela, Luís Carlos Vigarani e Paulo Nazareno são também pontos altos desse espetáculo, pois tudo flui num jogo bem-humorado e com soluções bastante criativas para representar os lugares onde se passa a história.

             A adaptação escolhida do conto é a mais próxima da versão dos Grimm ou de Walt Disney, pois o flautista some com as crianças dentro de uma montanha, deixando apenas uma para trás: um pobre menino de muletas, que retorna para casa fazendo a alegria das mães. No conto dos Grimm, ninguém fica para trás. Na versão de Walt Disney, o menino deixa as suas muletas na porta da caverna e sai correndo, enquanto sobe a música falando de liberdade e alegria. Por sorte, a adaptação da Trip equilibrou-se entre a visão mais pessimista e violenta da lenda original e a visão redentora dos Grimm e de Disney.

E de que trataria o conto? Quais os pontos nevrálgicos ali estabelecidos? Claro que se está falando da falta de caráter de um rei prepotente e egoísta; da mesma forma, da condição do artista e da magia da arte; pode-se pensar ainda na relação sempre difícil entre a ruptura do mundo infantil para o mundo adulto; outra possibilidade é se pensar nas perversidades de sempre: a pobreza, os altos impostos, os governantes autoritários. Enfim, as sendas possíveis para se ler e reler o conto são múltiplas. No entanto, como bem ressaltou Níni Beltrame, o ponto primordial é o verbo, ou seja, a palavra. É a força da palavra o motor grandioso desse conto. A palavra é memória, é liberdade, redenção, condenação. A cidade de Hamelin é punida pelo descumprimento da palavra. As atrizes, ao iniciar a peça, no prólogo, fazem o trato de não quebrar o acordado. Uma delas tenta, porém é persuadida a cumprir o trato. E elas usam, de forma muito inteligente, o distanciamento para a compreensão da importância de se continuar. Há momentos em que elas são tão espectadoras quanto o público.

A combinação do cenário, o jogo com os espectadores, o carisma das atrizes, a delicadeza com que narram a história, a maneira com que as atrizes se introduzem dentro do tempo, a excelente manipulação e o enorme rigor técnico faz de O flautista de Hamelin um desses trabalhos que surpreendem pela simplicidade, pelo respeito ao público, tanto o infantil quanto o adulto. Além de ser um bom exemplo de como uma parceria criativa com um grupo de fora pode ajudar, nesse caso, a companhia espanhola “Los Titiriteros de Binéfar“. Esta peça é um exemplo de teatro feito no interior de Santa Catarina que consegue sair por aí, apresentar-se em qualquer lugar, impor-se com sua criatividade e sua beleza em qualquer palco.  Se é verdadeiro que não existe espetáculo que não padeça de um ou outro reparo, O flautista de Hamelin consegue transformar suas pequenas imperfeições em gesto delicado. As arestas do espetáculo são aparadas na própria cena, de maneira muito divertida.

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FOTOS DE MARCO VASQUES

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