VELHOS, de Sergio Mercurio, encerra o FITA

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VELHOS

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

            O 7º FITA chega ao seu final com um espetáculo contundente, belíssimo. Trata-se de Velhos, que tem texto e direção de Sergio Mercurio. No palco Mercurio e  Rosimari Jacomelli comungam a carnação poética apresentando toda a fragilidade do envelhecimento. Velhos é um espetáculo dividido em sete esquetes, nos quais somos apresentados a uma série de personagens que vão apresentando ao público as questões da vida, da morte, do abandono, da solidão, dos encontros e desencontros, tendo sempre como pano de fundo a velhice.

            Para cada quadro, Sérgio e sua companheira de palco trabalham com um tipo diferente de manipulação, passando pela ventriloquia, pelo uso dos pés, por bonecos pequenos e gigantes. O primeiro esquete se inicia com o melancólico velho chamado Tronco, que dialoga com o manipulador e vai, de forma irônica, grosseira, mas ao mesmo tempo delicada e perspicaz, traçando todo um panorama sobre a cultura de massa, o valor da poesia e a força da arte.

            Assim os quadros seguem, seja com um texto tocando a auto-ajuda, mas não caindo na pieguice, quando, por exemplo, uma velhinha chamada Eduviges interage com o público, ouve vozes, vê nossos anjos e sai de cena com a bondade inerente a algumas velhas almas. O humor transita entre o real e o surreal, quando um índio navajo está perdido e invoca os espíritos. Ele atende o celular e sua filha tenta resgatá-lo num aeroporto. Outro quadro traz o diálogo irascível entre um casal que está numa cama de hospital ou, se entramos no campo metafórico, estão numa vida além da vida, ou seja, mortos.

            De quadro em quadro, o trabalho de Sérgio Mercurio concilia a força poética do texto com a perfeição harmônica da técnica na manipulação. Sozinho ou ao lado de Rosimari o trabalho é carnação poética sempre. Uma das grandezas do espetáculo está no carisma dos personagens. São todos tão fortes, tão acariciadores da alma dos espectadores. É muito difícil não se identificar com algum deles, afinal a velhice colocada no palco é a velhice universal, a velhice que perpassa toda a nossa experiência humana, seja ela  vivida ou imaginada. A condição eterna da perda, do esquecimento, do derradeiro fiapo de vida a que estamos condenados vai se aproximando mais e mais do público arrebatadoramente.

            O cuidado do espetáculo revela o profundo conhecimento de Sérgio na arte do teatro animado, que está há mais de 20 anos percorrendo os palcos e expondo uma experiência de vida, de olhar, de poesia que engrandece. Ele aposta e evidencia o humano em todas as suas facetas. Não se exime de ser melancólico, triste, alegre, esperançoso e desesperançado. Demonstra um olhar que busca a humanidade completa, intensa. Trata-se de um artista multifacetado: ator, diretor, escritor, cineasta, desenhista, manipulador e construtor dos bonecos, que a cada espetáculo vai crescendo, expondo-se, interagindo de maneira poética com o público.

            Bonecos feitos por ourives, atuações firmes, palco nu, comunhão com o público, delicadeza e poeticidade são as principais qualidades de Velhos, que encerra o festival de maneira  retumbante, arrebatadora.  Nem a choradeira constante dos organizadores, nem a sexta-feira preenchida por espetáculos menores conseguirá apagar a iluminação poética que Velhos trouxe para o Teatro Ademir Rosa. No geral, fica a lição: é possível um festival com menos espetáculos, com menos maratonismo e que privilegie a qualidade.

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FOTOS MARCO VASQUES

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