André Carreira fala sobre a vinda de Marvin Carlson e Patrice Pavis para colóquio em Florianópolis

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André Carreira fala sobre a vinda de Marvin Carlson e Patrice Pavis para o Colóquio Pensar a Cena Contemporânea

                                                           Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

André Carreira é diretor de teatro e professor do Programa de Pós-Graduação em Teatro da Universidade do Estado de Santa Catarina. Com doutorado pela Universidade de Buenos Aires e Pós-Doutorado pela Universidade de Nova York. Desenvolve pesquisas sobre produção teatral e cultura regional, a formação do ator e espaços não convencionais. Atualmente, seu projeto de pesquisa gira em torno de teatro e ambiente, com foco na atuação e exploração dos espaços. Organizou diversos livros sobre estes temas, além de ser autor de Teatro de rua: uma paixão no asfalto e El teatro callejero en la Argentina y en Brasil democráticos de la década del 80. Exercendo a função de Diretor Assistente de Pesquisa do Departamento de Artes Cênicas, está a frente do Colóquio Pensar a Cena Contemporânea que acontecerá, em Florianópolis, no CEART/UDESC, nos dias 2 e 3 de julho. O colóquio tem como objetivo realizar um encontro entre professores pesquisadores de programas de pós graduação e dois pesquisadores internacionais cujas produções intelectuais têm influenciado muitos estudos desenvolvidos no nosso país: Marvin Carlson (CUNY) e Patrice Pavis (University of Kent). Nesta entrevista André Carreira discute a relevância do pensamento de Carlson e Pavis para o teatro contemporâneo.

Patrice Pavis e Marvin Carlson estarão reunidos num colóquio, em Florianópolis, no início da próxima semana, quais as principais discussões desse encontro?

A ideia do Colóquio Pensar a Cena Contemporânea é criar uma espaço de troca entre os dois teóricos estrangeiros e pesquisadores de todos os programas de pós-graduação de artes cênicas do Brasil. Nosso evento tem como eixo a reflexão sobre conceitos fundamentais para a pesquisa teórica e prática no teatro. A partir da proposta dos dois convidados, nosso tema central será a discussão da ideia de um “teatro pós-dramático”. Também serão abordados tópicos como a noção de “teatralidade”, “performatividade”, e até de um “teatro performativo”. O Colóquio se propõe a ser uma oportunidade para que todos coloquemos em dúvida algumas certezas que hoje em dia estão na nossa pauta de trabalho.

Por que a escolha desses dois pensadores?

O convite aos Professores Patrice Pavis (University of Kent, Inglaterra) e Marvin Carlon (City University of New York, EUA) se deve ao lugar que ambos ocupam no universo da pesquisa teatral no mundo. O trabalho destes dois pesquisadores é referência chave para toda a pesquisa atual no campo do teatro e da dança.  Pavis contribuiu de forma decisiva para nossas pesquisas quando publicou nos anos 80 seu Dicionário do Teatro, a partir do qual se estreitaram de forma definitiva a relação entre a semiótica e o teatro. Posteriormente, seu trabalho sobre o teatro e os cruzamentos de culturas renovou o campo ampliando os estudos sobre os vínculos entre o teatro e a performance. Marvin Carlson tem uma produção intelectual dedicada a entender a cena contemporânea que contribuiu com a ampliação do próprio conceito de teatro. Carlson também é um grande estudioso da história do teatro com uma ênfase no estudo dos espaços teatrais. Ainda vale dizer que Pavis e Carlson são grandes mestres, responsáveis pela formação de gerações de pesquisadores. Isso que permite supor que o Colóquio oferecerá a todos os participantes a oportunidade de realizar tanto trocas conceituais como de procedimentos de pesquisa. A visita desses dois pesquisadores está relacionada com o projeto de internacionalização do Programa de Pós-Graduação em Teatro da UDESC. Também buscamos ampliar nosso diálogo com os pesquisadores dos programas de pós-graduação do Brasil, por isso, o Colóquio tem um formato sem palestras, que privilegia a horizontalidade do diálogo. Será um encontro entre pares.

A editora Perspectiva publicou inúmeras obras de Patrice Pavis, que é um dos grandes pensadores do teatro contemporâneo, como você avalia a entrada das teorias de Pavis no contexto do pensamento e da prática do teatro brasileiro?

A obra de Patrice Pavis foi desde as primeiras publicações em espanhol, e posteriormente, em português, uma importante contribuição no que se refere à sistematização dos estudos teatrais. Não cabem dúvidas que os estudos de Pavis foram significativos na valorização da pesquisa no campo do teatro, pois, contribuíram para preencher a lacuna entre o campo da teoria e o da prática criativa. Por outro lado, a complexidade do pensamento de Pavis, especialmente, no que se refere à necessidade de uma leitura da cena e sua relação com as complexas tramas da cultura, ampliou e expandiu aquilo que consideramos em algum momento como novo na nossa pesquisa, isto é, a semiótica teatral. Podemos dizer que seus escritos têm sido fundamentais para todos os estudos que tratam de compreender o teatro como um fenômeno que vai muito além da dramaturgia e de como se põe em cena um texto. O livro “Análise dos Espetáculos” é um material que tem influenciado muitas pesquisas na pós-graduação.

Carlson dedicou-se a mapear as teorias de teatro e fez um estudo introdutório sobre a performance. Além dessa contribuição aos estudos teatrais, quais outras obras dele o senhor destacaria e porquê? Qual a importância do pensamento de Carlson para a questão da crítica pós-colonial?

O trabalho do Professor Carlson é amplo e diversificado. Seus estudos sobre a performance não apenas introduzem o conceito em relação ao teatro, como nos propõem uma leitura crítica sobre as diferentes modalidades cênicas que podem ser vinculadas à noção da performance. Também cabe destacar o seu livro sobre espaços teatrais, no qual o autor faz uma leitura semiológica de diferentes tipos de palcos e edifícios teatrais, e o livro sobre semiótica teatral, no qual discute. Ainda podemos dizer que a vasta obra de Carlson oferece reflexões sobre o teatro do europeu. Seu olhar crítico tem se dedica às formas contemporâneas como o teatro imersivo, de modo que seu trabalho representa um estímulo à inovação nos estudos do teatro. O descentramento que Carlson tem buscado na hora de pensar o teatro contemporâneo, representa um movimento que está relacionado com uma crítica pós-colonial principalmente porque junto a trabalhos como do pesquisador Richard Schechner, entre outros, tem desconstruído a noção canônica do teatro. Podemos dizer que esse é um elemento que aproxima os dois principais convidados do Colóquio.

Por muito tempo imperou a ideia de uma prática teatral distanciada da academia. Hoje, embora ainda tenhamos resquícios desta separação, percebe-se que cada vez mais a academia vem unindo a teoria à pratica teatral propriamente dita, como você avalia este novo panorama?

A separação entre as práticas da universidade e do campo da criação artística se deveu principalmente ao fato de que tradicionalmente os cursos superiores se dedicavam somente à elaboração teórica. É preciso lembrar que não faz muito tempo que a universidade incorporou a formação prática dos artistas. O Brasil foi pioneiro neste sentido. Só nos últimos quinze anos alguns países da América Latina e Europa instalaram cursos de atuação em suas cátedras. Este ensino estava reservado aos conservatórios nos quais a reflexão teórica é secundária. Além disso, nossa tradição de estudos teatrais provem da literatura. E sabemos que literatura e teatro são duas coisas bem distintas. Na universidade brasileira há ainda o fato de que desde os anos 90 há uma grande quantidade de professores universitários que são também artistas de destaque em seus respectivos contextos teatrais. Não são poucos os casos desses criadores que têm uma consolidada trajetória como diretores, atores e cenógrafos. Assim, a aproximação entre a academia e o território da criação se fez inevitável, e também muito produtiva, porque ambos campos contribuem mutuamente para a complexidade de suas respectivas tarefas.

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ENTREVISTA PARCIALMENTE publicada no Diário Catarinense [03/07/2013]

FOTO DE CARLSON E PAVIS DE MARCO VASQUES

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