AS FELÍCIANAS, um espetáculo que nos representa

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AS FELICIANAS – humor, crítica e diversão

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

Nos últimos anos, o humor brasileiro passou por uma série de transformações, sobretudo com a ascensão do stand up comedy tradicional e de um tipo de humor que reúne alguns aspectos do formato do stand up, mas com atores interpretando um personagem, muitas vezes narrando uma história. Esse modelo tem como um dos pontos altos, no Brasil, o Terça Insana, capitaneada pela atriz e diretora Grace Gianoukas. Em Florianópolis, um grupo de atores e atrizes vem fazendo continuamente espetáculos como Teatro de Quinta e Do avesso, seguindo a tendência do humor nacional e, ao mesmo tempo, trazendo para o palco algumas peculiaridades da região, tais como sotaques e gírias. Esse grupo mantém-se com bom público e boa produção há, pelo menos, quatro anos.

Não é nenhuma novidade que grande parte da chamada ala culta do teatro nutre extremado preconceito com o gênero. Também não é novidade para ninguém que grande parte de produtores culturais vivem à custa de atores globais que, por estarem expostos semanalmente em rede nacional, aproveitam para levar um humor cheio de preconceito, reafirmando alguns discursos sociais que deveriam ser combatidos, ou seja, um humor que faz uma elite econômica, a maior consumidora dos globais, a rir e se divertir, afirmando seus preconceitos contra negros, gays, lésbicas, gordos e velhos. Enfim, o gênero está em alta  e faz sucesso, tanto em metrópoles quanto no interior deste imenso Brasil.

            As felicianas é mais um espetáculo a entrar no rol da trupe catarinense que vem, há muitos anos, buscando na comédia um espaço para discutir questões políticas, sociais e estéticas. O título não deixa dúvida. Marco Feliciano é o mote do momento. É o nosso Silvio Berlusconi às avessas. A nossa vergonha nacional. Então, os atores Igor Lima, Malcon Bauer, WMarcão e Renato Turnes se unem para dar vida e voz às felicianas. O pano de fundo pode até ser a questão gay, a “tiração” de sarro com o deputado e pastor Marco Feliciano, e sua presença incômoda no cenário da política nacional, como já afirmamos. No entanto, a peça vai além da sátira dirigida e levanta questões como a liberdade, o desejo, a hipocrisia e a diferença.

Os quatro atores só interpretam figuras femininas, de anônimas drag queens a faxineiras, passando por satirizações feitas sobre a imagem da Xuxa e da cantora Joelma. A sucessão de esquetes vai desmontando preconceitos, ironizando a atual onda de protestos, brincando com gags visuais, com dublagem e, sobretudo – marca dessa trupe – com os limites entre a alta e a baixa cultura, entre o dito bom gosto da erudição e aquilo que permeia o popular. Além disso, são inseridas diversas referências à cultura pop, sobretudo da televisão, como uma referência que Igor Lima faz à esquecida apresentadora Mariane, um dos ícones genéricos da Xuxa nos idos anos de 1990. Uma salada de cultura de massa atravessada pelo humor – ora incisivo, ora melancólico – dos atores é colocada em cena com bastante competência.

            Com direção artística de Renato Turnes, As Felicianas tem entre seus pontos fortes uma exuberância musical poderosa, divertida, ousada na reunião que vai de Queen a Elymar Santos, da Banda Calypso a Saint-Preux, o autor de Concerto para uma voz, aquele clássico do “Daba da Daba daba dabauá daba daba. Badá badá bauá badá!” É por não ter medo de juntar estilos musicais díspares, por não hierarquizar nada que a trilha sonora do espetáculo funciona tão bem. Inclusive, vem de Turnes um dos melhores quadros: a imitação da cantora Joelma. Dividido em três partes, Turnes cria uma Joelma atrapalhada, que primeiro desloca o pescoço, depois é eletrocutada com o microfone, por fim, soterrada por algo que lhe cai na cabeça. Um castigo até pequeno para uma artista que andou se revelando dona de certos preconceitos impronunciáveis.

            Outro ponto alto é a presença de WMarcão como uma professora de sexo bastante voluptuosa no processo de ensino e aprendizagem de tão importante matéria. Inclusive, WMarcão, com seu poderio vocal, consegue criar excelentes dimensões psicológicas a alguns personagens, que em mãos menos competentes ficariam por demais caricatos e inexpressivos.

            As Felicianas é uma peça de humor, ainda recente, que, apesar de reciclar alguns personagens antigos, como a radialista de autoajuda Valéria, feita por Renato Turnes, ainda possui alguns problemas de ritmo, de noção de tempo, de um improviso às vezes forçado. Também precisaria equilibrar melhor os quadros: dar mais vazão aos que realmente funcionam e diminuir, ou cortar, outros que não chegam direito ao público, ou que parecem como meros apêndices no espetáculo, como é o caso de uma cena em que Malcon Bauer faz uma sopa, dublando Memory, cantada pela diva Barbra Streisand. A cena em si é boa, porém parece desconectada da proposta do espetáculo. Se era para dar uma quebra melancólica ao delírio bem-humorado do conjunto, será preciso trabalhar melhor a organicidade e o ritmo da cena.

            Enfim, As felicianas trabalha com um humor abrangente, popular, que não se leva muito a sério, mas que também não é inócuo ou incipiente. Um humor que no seu escracho tem muito a dizer, muito a enfrentar, sobretudo nesses tempos meio sombrios em que vivemos. Pseudodemocratas – e eles existem em nossas cidades disfarçados de intelectuais – querem, a todo custo, a toda força e berro ditar o que pode e o que não pode. Há mais felicianos espalhados pelas paisagens de nossa cidade que nossa vã filosofia possa imaginar. As felicianas, com toda a sua crítica, sua ironia, seu híbrido entre a alta e a baixa cultura, sua coragem e seu escracho, nos representam. Pelo menos a estes dois escribas.

felicianas1FOTOS DE MARCO VASQUES

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