Do corporativismo à inquietação estética – mostras e festivais

Do corporativismo à inquietação estética

 

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

  

CENA 10, mostra de teatro joinvilense, começa no dia 22 de agosto

 

Entre 12 e 16 de dezembro de 2001, acontecia em Joinville a mostra teatral Cena 10. Tratava-se de uma iniciativa da Associação Joinvilense de Teatro (AJOTE), no sentido de reunir boa parte da produção teatral da cidade ocorrida no ano anterior. Este ano, entre 22 e 31 de agosto, ocorrerá a décima edição da mostra. Nesta década, podemos observar alguns pontos importantes que tangeram o teatro produzido na cidade. O primeiro deles é que a AJOTE é uma realidade que, apesar dos percalços, demonstra a força que as entidades de “classe” podem exercer. Ela, seguramente, fortaleceu o componente político, o espaço de reivindicação e possibilitou a visibilidade e a manutenção da atividade teatral com uma prática para além da utopia ou do mero desejo de se fazer teatro por prazer. A profissionalização é sempre bem-vinda, sobretudo no que toca a questão da organização, dos pleitos de uma parcela do setor teatral – quase sempre conflitante entre si –, da formação de atores e técnicos e da presença na sociedade (ou seja, apresenta o fazer teatral como uma atividade muito importante para o desenvolvimento cultural e econômico da comunidade).

            A mostra manteve-se, nestas dez edições, praticamente dentro do mesmo modelo: para a abertura e o encerramento a apresentação de algum espetáculo nacional; apresentações dos grupos associados em diversos pontos da cidade; oficinas de formação. Em algumas edições houve a participação de especialistas convidados, que debatiam as peças após as apresentações com o público e com os envolvidos na respectiva montagem.

            À parte os espetáculos convidados, os debates e as oficinas, esse modelo escolhido para se mostrar o teatro produzido em Joinville incorreu numa encruzilhada quase que paradoxal: tudo pode ser “mostrável”? O simples pertencimento de um grupo teatral à associação o condicionaria a fazer com que sua peça participasse da mostra? Haveria espaço para que critérios como a qualidade artística, a inquietação estética e técnica fossem mais definidores da participação dos grupos? Haveria uma curadoria que faria a seleção da peças? O que se viu até esta décima edição foi que a AJOTE optou pelo caminho do acolhimento quase que irrestrito, dando o mesmo espaço de divulgação, de presença, de tempo e colocando lado a lado espetáculos cujo labor artístico e profissional rasuram a carne pela força poética e espetáculos que estão abaixo da linha do amadorismo e do experimento, que, é preciso dizer, são necessários e precisam de espaços. A história da arte tem mostrado o coleguismo “de classe”, que quase sempre eclipsam o fator poético da arte.

            Se essa escolha de fazer uma mostra anual também possui como meta a formação de público, outros questionamentos que surgem são justamente que tipo de público o teatro produzido em Joinville quer formar? Quais os critérios que realmente valem nessa formação: a quantidade ou a qualidade do que se coloca no palco? O fato de que a mostra conseguiu completar dez edições a torna madura o suficiente para que ela consiga enfrentar a cristalização do modelo atual – que, em certo sentido, está provocando um esvaziamento da qualidade – e parta para uma reinvenção, uma alteração da forma confortável sobre a qual se sustentou nos últimos dez anos. Uma possibilidade aventada pelos organizadores é a de transformar a mostra em um festival, o que amplifica a mostra, mas exige da AJOTE uma reflexão muito aprofundada sobre que tipo de modelo de festival ela deseja implantar na cidade.

O presidente da AJOTE, Luciano Cavichiolli, tem demonstrado desejo de mudanças no modelo atual. A passagem da categoria de mostra para festival pode ser uma saída para se fugir do marasmo e da zona de conforto em que o teatro joinvilense se encontra; no entanto, se faz necessário analisar os modelos de festivais de teatro de Santa Catarina. Existe uma argumentação perpétua dos profissionais de teatro de que falta uma política pública efetiva, real e clara para o setor. Sim. É verdade. Uma alternativa para se acabar com o recorrente balcão de negócios que viraram os festivais seria a construção de editais específicos para festivais de grande, médio e pequeno porte. Aí reside outra questão: a megalomania não é privilégio dos políticos, pois os artistas, via de regra, transformam seus umbigos em galáxias tridimensionais.

Blumenau, Itajaí, Florianópolis, Jaraguá do Sul, Chapecó, Lages são cidades que possuem seus festivais/mostras. Temos, também, o tradicional e igualmente carente de rediscussão Festival da Federação Catarinense de Teatro – realizado pela FECATE. Se por um lado temos que buscar uma política pública para o setor e discutir suas reais necessidades, precisamos, com urgência, aprender com a experiência e pensar as direções que esses eventos tomaram. Parece-nos que a mostra Cena 10 aponta para um esgotamento já existente em festivais como o FITA e como o Festival Isnard Azevedo, por exemplo, que insistem em apostar na quantidade em detrimento da qualidade; que possuem modelos de curadoria viciados e estanques; que não privilegiam os grupos, pois oferecem cachês risíveis que atraem, em sua maioria, grupos iniciantes; que não prezam pela constituição de um formato, de uma linha de pesquisa e pela busca de trabalhos que dialoguem com o homem de hoje, com a vida do agora. Que Joinville se valha das experiências espalhadas por Santa Catarina para construir um festival sólido e que traga um estranhamento à sociedade, cada vez mais líquida. É dessa autocrítica que artistas, público, produtores e gestores precisam para filtrar e redimensionar seus trabalhos.

 Marco Vasques é poeta, crítico de teatro, editor da Revista Osíris e do Suplemento Cultural de Santa Catarina [ô catarina]. Faz mestrado em teatro na UDESC.

 Rubens da Cunha é poeta, crítico de teatro, editor da Revista Osíris. Faz doutorado na dramaturgia de Hilda Hilst na UFSC.

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