FALSA E IRRESPONSÁVEL

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FALSA E IRRESPONSÁVEL

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

Texto publicado no jornal Notícias do Dia [07/10/2013]

            Há quem argumente que a crítica teatral morreu. E se se tem razão em tal afirmativa, é porque o teatro também está morto. Por consequência, a crítica inexiste. Ou melhor, quando o teatro inexiste a crítica é impensável, pois a crítica é a afirmação de um movimento teatral, jamais causa. Não há mais o tal crítico da nova geração, aquele tão ironizado por Nelson Rodrigues, na peça Viúva, Porém Honesta. Também não há mais o teatro da nova geração, por isso, todos vivemos num eterno naufrágio. O 20º Floripa Teatro – Festival Isnard Azevedo continua com a sua irresistível capacidade de irritar o espectador, de menosprezar o público e de fazer aberturas com espetáculos realmente inomináveis.

Aliás, inominável é um adjetivo que serve para qualificar aquilo que nós não conseguimos definir ou entender. O inominável pode ser algo tão bom que escapa ao entendimento, escapa ao mundo das palavras. Pode ser aquilo que não podemos descrever (Beckett que o diga), porém pode ser, também, algo tão ruim, que qualquer outro adjetivo jamais conseguirá predicar. Infelizmente, a montagem que abriu o 20º Festival Isnard Azevedo entra nesta categoria de inominável, ou seja, não passa de um borrão no palco, disfarçado, em seu pior disfarce, de farsa irresponsável. Trata-se de um espetáculo contaminado pelo óbvio da sedução e, por isso, nada sedutor. Falamos da peça Viúva, Porém Honesta, de Nelson Rodrigues, que foi adaptada pelo grupo recifense Magiluth, sob a direção de Pedro Vilela. Escrita em 1957, ela tem o subtítulo de “Farsa irresponsável em três atos” servindo de veículo para Nelson destilar seu sarcasmo contra a burguesia, os jornalistas, os políticos, as relações familiares, as convenções de sua época e, também, um arrevessado olhar preconceituoso sobre os críticos de teatro.

A montagem do Grupo Magiluth resolveu escancarar o sarcasmo e criou uma das encenações mais “inomináveis” que já passaram por Santa Catarina. Nada funciona: o humor chupado do Zorra Total e Praça é Nossa, preconceitos vários disfarçados de pseudo-transgressão, ícones da cultura pop como a boneca Barbie, o Sr. Batata, personagem do filme Toy Story, usados ao deus-dará. A trilha sonora, que passeia desrespeitosamente pelo kitsh, desperdiça tanto a cantora cubana La Lupe quanto Rita Cadillac, num acúmulo de gritos, histrionismo, falta completa de senso estético, falta completa de compreensão do que é uma farsa e do que seria a irresponsabilidade da farsa de Nelson Rodrigues.

Os seis atores revezam os diversos personagens usando todos os clichês de atuação, alguns atores até apresentam alguma técnica sob o caos a que foram submetidos pela direção de Pedro Vilela. Enfim, qualquer fala negativa a respeito desse espetáculo parecerá um eufemismo. Inominável, talvez seja o que chegue mais perto desse desastre. E aí está a questão: se o teatro, mais e mais, se apresenta amorfo, incapaz de vazios e de uma busca estética que ofereça afeto, como Deleuze queria, a crítica, ela mesma, jamais existirá! E o 20º Festival Isnard Azevedo está aí para afirmar, o teatro está morto, os festivais estão mortos.

XV Festival Recife de Teatro Nacional

FOTOS: DIVULGAÇÃO

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