Floripa Teatro privilegia temática social

fortuna

Temática social e política prepondera nos espetáculos do Floripa Teatro

Por Marco Vasques e Rubens da Cunh

 

O OUTRO LADO

Apesar dos percalços, é possível divisar uma linha temática em parte da programação do 20.º Festival Isnard Azevedo: trata-se da preocupação social e política de alguns espetáculos. A peça “O outro lado”, apresentada pelo grupo mineiro Quatroloscinco, no Sesc Prainha, dias sete e oito deste mês, traz como pano de fundo toda uma preocupação existencial sobre homens e mulheres perdidos, encaixotados em porões, em periferias, em lugares pouco iluminados, onde apenas a arte pode trazer um pouco de luz. “O outro lado” é uma criação coletiva e, como tal, tem a sua verdade, a sua força, porém falta-lhe um olhar mais incisivo, mais conciso sobre a matéria-prima colocada no palco.

A peça conta com atores bastante expressivos, sobretudo Rejane Faria, que também canta em cena. Algumas das cenas conseguem traduzir toda a angústia, as fraquezas, as hipocrisias da contemporaneidade, porém ainda é um espetáculo que necessita de cortes, sobretudo em alguns clichês e em algumas alegorias mais óbvias. Tudo isso para que o impacto de sua proposta seja mais contundente e provoque (realmente) rupturas na apatia do público contemporâneo. O grupo é jovem e vê-se claramente que ousa investir numa linguagem própria, necessitando apenas uma direção mais firme, para dar alguns saltos sem rede de proteção. Ambientado num porão-bar, de onde não se deve sair, pois o mundo lá fora está em guerra, o espetáculo dialoga com os inúmeros conflitos bélicos existentes por todos os continentes de nosso planeta.

                                               O DEUS DA FORTUNA

O outro espetáculo veio da Paraíba. Trata-se da peça “O deus da fortuna”, de Bertolt Brecht.  O discurso político de Brecht, deve-se dizer, é importante e ainda válido em tempos de capitalismo ferrenho. Entretanto, para trazê-lo aos palcos, nos dias de hoje, é preciso que se abandone a ingenuidade e a retórica política de Brecht. É necessário colocar no palco apenas o cerne de seu discurso: a vontade de transformação do mundo. Faz-se indispensável, mais que tudo, pensar nos nossos dias e trazer o texto para uma nova teatralidade, para uma nova condição do humano, pois não somos mais os mesmos, embora parecemos ser sempre iguais.

Falta ao espetáculo agredir o mundo com mais força. Eis o grande problema da montagem do Coletivo de Teatro Alfenim, que aposta na pieguice, na obviedade das alegorias, na indecisão entre um teatro dramático, um teatro épico e uma commédia dell’arte, passando pela manipulação, pelo musical, sem conseguir atar todos os gêneros. Ao contrário, o que a cia. consegue é tornar o texto de Brecht um apanhado desnecessário de falas pseudopolíticas.

Nesta montagem fica evidente que a escolha do Teatro da UBRO foi equivocada, já que o cenário e a partitura gestual do grupo exigem um palco maior. Os atores não conseguem entrar na luz quando manipulam os bonecos; a luz está focada no rosto dos atores e a manipulação se torna nula. A nítida contenção dos gestos e os constantes erros no texto e na partitura dos movimentos dão a certeza de que o espetáculo não foi concebido para se apresentar num palco tão diminuto.

No geral, o Floripa Teatro vem demonstrando que muita coisa precisa ser repensada. Se as observações, que ano a ano são feitas, não resultam em uma postura de mudança, a ausência do público aponta para aquilo que vimos reiterando: ultrapassamos a linha do sinal vermelho; por isso estamos na zona do acidente.  

outroladoFOTO 1: divulgação: espetáculo O DEUS DA FORTUNA

FOTO 1: divulgação: espetáculo O OUTRO LADO

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3 respostas para “Floripa Teatro privilegia temática social

  • Nini Beltrame

    Gosto da crítica concisa, elucidativa e construtiva que fazem.
    Isso nos ajuda a pensar o teatro que se faz hoje. Parabéns!

  • Fábio Brüggemann

    Caros Marco e Cunha, concordo com o Nini, até porque há uma carência enorme de críticos dispostos a analisar e escrever sobre espetáculos no Estado. Não vi a peça e não posso obviamente dizer se concordo ou não. Porém, uma questão merece um questionamento, independentemente de ter visto ou não, que é relativo à dramaturgia de Brecht. A frase “é preciso que se abandone a ingenuidade e a retórica política de Brecht”, se pensarmos sobre a semântica da palavra política no sentido aristotélico, não há como abandonar a retórica de algum texto, muito menos a política, pois é intrínseca a qualquer texto, ainda mais ao texto brechtiano. Seria como dizer que um montador devesse tirar a retórica literária (no que se refere à construção de seus textos, junções de palavras etc.) de Joyce, no caso de alguém ter supostamente montado Ulisses, por exemplo.
    No mais, vocês estão prestando um serviço essencial.
    Abraço.
    Fábio

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