“No Pirex” e a poesia em cena

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Espetáculo “No pirex” foi um raro

sopro de poesia no Floripa Teatro

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

Publicado no jornal Notícias do Dia [14/10/2013]

Há uma antiga frase atribuída ao pensador Tertuliano: “credo quia absurdum”, ou creio porque é absurdo. A força da sentença está em acreditar no absurdo, ou seja, a crença não acontece apesar do absurdo, mas justamente por causa dele. A frase criada por Tertuliano se destinava a fins religiosos, mas pode ser ultilizada também para fins teatrais, sobretudo para falar do espetáculo “No pirex”, do grupo mineiro Armatrux, apresentado no 20.º Festival Isnard Azevedo. Sob a direção de Eid Ribeiro, os cinco atores trouxeram ao palco um espetáculo que retoma e reforça a nossa fé no teatro.

Utilizando elementos do clown, do teatro físico e da mímica, manipulando objetos cotidianos, sobretudo, copos, pratos, pires e algumas outras louças, a peça transcorre em torno de uma mesa, tendo uma cozinha ao fundo. O teórico francês Patrice Pavis destaca três estratégias para o uso do absurdo em cena: o absurdo niilista, o absurdo como princípio estrutural e o absurdo satírico, cuja formulação e intriga dão conta de maneira suficientemente realista do mundo descrito.

No pirex” se aproxima mais deste terceiro tipo: o absurdo das situações cotidianas de opressão, das relações de poder, da mesquinharia, das pequenas corrupções e agressões que nos impusemos uns aos outros. Essas questões são colocadas em total silêncio, pois os personagens não possuem fala; no entanto, o desenho de seus corpos no palco, como queria Meyerhold, é o suficiente para seduzir o espectador. Em muitos momentos, a clareza das ações é aterradora. O espetáculo consegue apresentar inúmeras camadas de leitura: agrada a um público não acostumado ao teatro, pois seu humor ferino, sua visualidade tensa e sua dramaturgia enxuta e orgânica estabelecem vários campos de diálogo, trazendo cada espectador, seja ele ilustrado ou um simples estudante, para dentro do jogo. “No pirex” seduz por sua poética de angústia.

A maior grandeza do espetáculo está nas suas camadas. Quanto mais aprofundamos o olhar sobre ele, mais ele nos retorna: é possível pensá-lo pelo viés político, sociológico, filosófico, poético, psicológico, ou por onde se queira, pois na sua presença terna e agressiva, na sua aposta arriscada na escatologia, no seu tom denunciativo das escuridões humanas, ele consegue trazer ao palco o absurdo da existência. E, por isso, consegue nos fazer crer, justamente porque é absurdo e teatral existir.

As referências estéticas são muitas: Buñuel e seu filme “O Anjo Exterminador”; todo o cinema e a dramaturgia de Jodorowsky; o universo soturno de Goya, o teatro do pânico; a forte presença do surrealismo; o hibridismo de inúmeras correntes estéticas. Seria possível escrever páginas e páginas sobre as relações que o espetáculo permite. E aí está a grandeza da direção de Eid Ribeiro, que conseguiu construir um espetáculo altamente intelectualizado, no bom sentido do termo, sem agredir o espectador que não possui as referências, sem pedantismo, sem invencionices e sem as pirotecnias desnecessárias que pululam pelos palcos deste imenso Brasil.

A nota triste é que esse espetáculo foi uma exceção na programação do 20.º Festival Isnard Azevedo. Será que é pedir muito que trabalhos cuidadosos como este sejam parâmetro para a seleção? Por que se insiste, mais e mais, num modelo de curadoria arcaico e equivocado? Por que não se tem mais compromisso com o dinheiro público? Porque, cá entre nós, usar R$400 mil reais para fazer um festival com tamanha pequeneza estética constitui-se num ato irresponsável. Por que não se pensar na qualidade em detrimento da quantidade? Por que terceirizar um festival, quando o óbvio seria fortalecer a instituição que sempre fez o evento? A crise é geral. Quase todos os festivais, pelo menos os de Santa Catarina, estão enfermos e precisam, com urgência, rediscutir novos caminhos.

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Uma resposta para ““No Pirex” e a poesia em cena

  • Júlio Maurício

    Marcos e Rubens, realmente dos espetáculos que consegui assistir até o final (a maioria era impossível) nesta edição do Isnard Azevedo, este foi disparado o melhor espetáculo.
    Outro fato que levantas no texto, sobre a concepção do Festival, gostaria de dizer que há uns 5 meses atrás a classe teatral de Floripa foi convidada para uma reunião com o Presidente da FFC, para tratar de assuntos do referido Festival. A classe compareceu em peso, sendo necessário dividir a reunião em 2 turmas. Levantamos vários questionamento e levamos muitas sugestões. Para nossa surpresa o Presidente falou que em função de não disponibilizar de verbas para a edição de 2013, elas serias postas em prática em 2014. É importante salientar que o assunto mais comentado foi o de priorizar a qualidade e não a quantidade dos espetáculos, no que concordou o Presidente da FFC. Pois bem, logo depois foi lançado o edital para 2013 com um ítem que considero uma falta de credibilidade à produção teatral da cidade, quando diz que a curadoria selecionaria de 5 a 10 espetáculos de Floripa. Estava institucionalizada a participação por cotas???? Nós não precisamos deste artifício para participar do referido Festival. A produção teatral da cidade hoje está no mesmo nível da produção de qualquer outro grande centro do país. Podemos concorrer com a mais absoluta igualdade em qualquer festival nacional, tanto é que nossos grupos tem se apresentado e sempre com muito sucesso nesses eventos, alguns inclusive internacionais.
    Outro fato que chama a atenção é saber da verba gasta no Festival de 2013 (R$400.000,00). Com este montante era possível colocar em prática a maiorias das idéias e sugestões levadas ao Presidente da FFC, quando solicitadas. Infelizmente concluo que mais uma vez fomos usados para dar credibilidade a um Festival que há muito já deixou de ser referência nacional e local. Basta ver as platéias vazias na edição que terminou no último sábado..

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