Crítica do espetáculo O homem de Agrolândia

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O HOMEM DE AGROLÂNDIA – A Ironia de ser grande

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

Publicado no jornal Diário Catarinense (DC CULTURA) [22/02/2014]

 “Cresci; e nisso é que a família não interveio; cresci naturalmente, como crescem as magnólias e os gatos. Talvez os gatos são menos matreiros, e, com certeza, as magnólias são menos inquietas do que eu era na minha infância. Um poeta dizia que o menino é pai do homem. Se isto é verdade, vejamos alguns lineamentos do menino.” Essa é a introdução que Brás Cubas faz quando busca memórias da infância. A frase “o menino é o pai do homem”, retirada de um poema do inglês William Wordsworth, demonstra a força que a infância tem na construção do adulto. Não apenas a infância, mas o local, a geografia onde ela se fez compõem aquilo que vem a se tornar uma pessoa. Da mesma forma que Brás Cubas traçou os delineamentos do menino que foi, Malcon Bauer percorre um caminho semelhante na sua peça O Homem de Agrolândia, que esteve em cartaz no Trintão Bar e Restaurante Dançante no último final de semana, e que retornará ao Teatro da UBRO nos dias 21 a 23 de fevereiro, sempre às 21 horas.

Sob direção de Renato Turnes e produção da Cia. La Vaca, a peça, na sua mistura de teatro confessional, stand-up e esquetes, apresenta-nos a trajetória desse menino que saiu (e nunca saiu) de sua cidade. Agrolândia é uma dessas cidades pequenas, rurais, bastante comuns no interior de Santa Catarina. O personagem de Malcon, ele próprio, explica de forma simples, didática e divertida o que se pode fazer em Agrolândia, e o que ele fez por lá, desde que nasceu até a sua saída, quando veio para a capital cursar Artes Cênicas. O relato não se apoia somente no humor bastante característico de Malcon e de sua trupe, mas apresenta várias camadas de leitura, tocando, muitas vezes, o tragicômico, o clownesco, fazendo do humor uma porta de entrada para expor as agruras da solidão e do deslocamento frente a uma comunidade uniforme.

Uma das grandes qualidades do espetáculo é a utilização do riso amargo, do velamento da dor. O espectador é imerso numa aparente atmosfera festiva, num simulacro de comédia frouxa e fácil. A estrutura do espetáculo é simples: um microfone, uma mala, uma tela de projeção, um banco e Malcon Bauer, numa espécie de conferência espelhar, jamais narcísica. Nesse contexto cênico, talvez um melhor aproveitamento da iluminação, sobretudo na face do ator, permitirá que o espectador capte pequenos gestos que podem ampliar a percepção do trabalho. No entanto, quando se percebe a manipulação do silêncio, dos olhares e o ritmo do trabalho na transição do que é realmente “ironia autodepreciativa” para a ácida condição humana de se estar no mundo (e aquém do desejo do mundo desejado), é impossível se manter no clima de derrisão em que Malcon Bauer tenta ludibriar o público. Claro que um espectador menos avisado da condição poética e tragicômica exposta ficará no raso que a ranhura de sua pele possa atingir.

No limite entre a análise do outro e a análise de si aparecem ternuras, pessoas, personagens: a escola, a figura do pai, da mãe, da avó, as peripécias de juventude, o estranhamento do corpo, o desejo, as primeiras fraturas e suas consequências epiteliais e psicológicas. Malcon dá conta de colocar essas e muitas outras nuances no palco: do menino que não gostava de “socializar”, mas que teve que ir à escola, ao pré-adolescente que começou a participar de um grupo de dança folclórica, chegando ao adolescente gordo que decorava piadas para entreter amigos em festas e assim ser um pouco querido, ao jovem que saiu de Agrolândia para vir fazer teatro na “cidade grande”— tudo passa pelo texto pessoal e é cadenciado entre o riso e o espanto sombrio que uma vida carrega.

Se há algo a ser aprimorado no espetáculo e que padece de um afinamento maior é a transição dos quadros e dos temas. Ainda que careça de algum reparo (qual trabalho não precisa?), Malcon consegue, via improviso, debochar da seriedade excessiva da arte e das pessoas. Aí encontramos outro ponto possível de leitura, ou seja, a crítica do mundo contemporâneo unida à crítica de arte e da arte. A referência aos clichês do palanque modernoide em que a arte e artista estão inseridos são constantes no espetáculo, o que nos leva a afirmar que O Homem de Agrolândia é, também, um manifesto artístico em que na sua maior defesa constam a ironia e o direito ao riso.

No geral, a peça consegue se comunicar tanto com quem tem uma experiência semelhante quanto com aqueles que têm um percurso distinto. Os do primeiro grupo se reconhecerão, porque também saíram (e nunca saíram) de seus lugares de infância. Se identificarão pelo deslocamento, talvez por uma claustrofobia, ou porque os limites daquele lugar eram apertados demais, como foram para Malcon; mas, ao mesmo tempo, foi nesses limites que o menino se tornou o pai do homem; foi nessa comunidade em que todos se conheciam, em que olhares e comentários moldaram o caráter. Por outro lado, o espectador que nunca saiu de sua cidade, ou que nasceu num lugar maior, completamente urbano, pode se identificar pela condição humana daquele personagem, pelo estranhamento e pela força de vontade que ele apresentou ao tomar as rédeas de sua vida. Além disso, praticamente, todos temos na família uma história de migração, de gente que veio de uma Agrolândia da vida.

Assim, a peça O Homem de Agrolândia é um relato íntimo do autor e ator Malcon Bauer, mas é também um relato próximo da maioria dos seus espectadores. E é essa universalidade que compõe a força inventiva e poética do espetáculo. E a máxima do escritor russo Tólstoi de que “se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, no caso de O Homem de Agrolândia é perfeitamente aplicável.

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