Crítica do espetáculo Mistero Buffo

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MISTERO BUFFO E A FORÇA DA PALHAÇARIA

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

Mistero Buffo é um espetáculo muito bem cuidado em todos os seus aspectos: a música, a cenografia, a atuação, a iluminação, sendo tudo muito bem orquestrado pelas mãos firmes da diretora Neyde Veneziano. Sem nunca cair no didatismo, nos panfletarismos ou no moralismo religioso, Mistero Buffo leva aos palcos seres à margem e marginalizados, que têm na fé cristã uma espécie de porto, ainda que essa fé seja e esteja tão danificada pela pasteurização de alguns valores, pela perpetuação de algumas atrocidades e, sobretudo, pela comercialização e inserção dela no jogo político. O espetáculo que esteve em cartaz no Teatro Pedro Ivo Campos, no último final de semana, surpreende por sua partitura semovente, que é capaz de elevar o improviso a um ato cênico pleno.

Se o poeta russo Maiakóvski fez de seu texto homônimo uma projeção sobre o futuro, prevendo ganhos no casamento do homem com a máquina, Neyde Veneziano foi buscar no texto do italiano Dario Fo, que é um dos maiores atores e dramaturgos de todo nosso tempo, um retorno à Idade Média, suas trevas e belezas. E o que vemos no palco são as nossas trevas, ou melhor, as trevas da condição humana. Toda a obra de Dario Fo, iniciada no começo dos anos de 1950, está calcada na sátira política e social. Ele é uma das vozes mais pertinentes contra os sistemas opressores e corruptos que se apossam dos governos e lá ficam a custo de mentiras, negociatas e jogadas escusas. Trata-se de uma dessas vozes artísticas que se faz cada vez mais necessária ser ouvida. A experiente companhia La Mínima traz aos palcos uma das principais obras de Fo, Mistero Buffo, e junto a ela toda uma pesquisa do gesto, das máscaras, do domínio do corpo, sempre em aparente desequilíbrio, e uma consciência, típica da cultura italiana, do papel da palhaçaria na cena.

            Mistero Buffo é um recolhimento que Dario Fo fez de mais de 20 monólogos de caráter político ambientado na Idade Média. É um teatro muito simples e direto, fortemente ligado à ideia de narração, de contação de histórias, tão característico dos saltimbancos. Mais especificamente, em relação aos Mistérios, o foco das narrativas girava em torno dos dramas litúrgicos que contavam as histórias de Cristo, seus milagres e sua Paixão. Eram jograis feitos por artistas à margem para o povo à margem: satíricos, denunciativos, cômicos, mas sempre preservando um forte respeito às ideias de amor e do sacrifício de Jesus.

Simone Weil dizia ter a certeza de que o Cristianismo é por excelência a religião dos escravos, que os escravos não poderiam deixar de aderir a ele, e que, por isso, ela, uma escrava, tinha se tornado cristã. Em Mistero Buffo há vários momentos nos quais os cristãos oficiais, que se adonaram do poder, são impiedosa e corretamente criticados; no entanto, resguarda-se sempre aquele Cristianismo primitivo, libertador, feito nas caves, nos escuros da clandestinidade e que tem na sua mensagem a ideia de liberdade, de respeito e de amor.

            A companhia La Mínima colocou em cena três dessas histórias entremeadas por canções e gagues diversas. A primeira história é sobre a ressurreição de Lázaro. Os atores Domingos Montagner, Fernando Sampaio e Fernando Paz dividem-se entre diversos personagens que estão num cemitério esperando a chegada de Jesus, que ressuscitará Lázaro. O que vemos é uma sátira ao culto das personalidades, à curiosidade humana pelas tragédias, a fé usada como show business nas mãos de alguns. O que temos é a transformação da fé e do nome de Jesus em uma mercadoria comercializada ininterruptamente. Um dos pontos altos deste primeiro ato ― sempre obediente à linguagem viva de Dario Fo, porque ele possibilita que suas peças sejam adaptadas a qualquer ambiente cultural ― é que a trupe La Mínima insere um sotaque bem paulistano, cheio de gírias e referências à cultura popular atual, dando uma agilidade vocabular bastante interessante à cena.

            No segundo quadro, um cego e um aleijado se complementam: o cego ajudará o aleijado a ver e o aleijado ajudará o cego a andar. Trata-se da história que utiliza mais o humor físico e a experiência em circo da trupe. Como todo bom show de palhaços, a graça está embasada numa profunda tristeza, numa melancolia sólida que permeia a desgraça desses dois abandonados. A atuação de Domingos Montagner e Fernando Sampaio é espetacular. Grandiosa também é a presença de Fernando Paz na trilha. Ele é capaz, em alguns momentos, de levar o espectador para dentro do palco com um simples gesto, um pequeno movimentar de sobrancelhas. Ao serem curados por Cristo, os personagens têm atitudes diferentes em relação ao milagre: o cego é todo alegria, todo maravilhamento frente às belezas do mundo. O aleijado maldiz o milagre porque agora ele é normal; ele é mais um na multidão e terá que se imiscuir a ela, terá que trabalhar e sofrer as agruras do sistema opressor. Dúbia, contundente e tensa, essa história se revela tanto em desesperança quanto em esperança frente à vida.

            O terceiro e mais dramático dos quadros se chama “O louco e a morte e o jogo do louco debaixo da cruz”. Como o próprio título já revela, a ação se dá na quinta e na sexta-feira santas. Um louco viciado em jogo é um contumaz perdedor e, também, o narrador e personagem central da história. Sempre à margem, vamos sabendo da última ceia, dos apóstolos, da traição de Judas até que entra em cena a Morte, que trava um diálogo com o louco e revela que na verdade não veio buscá-lo, mas sim Jesus Cristo. O louco seduz a Morte e consegue ludibriá-la. Ao tentar libertar Jesus, este se nega a descer da cruz. O que temos, então, é um monólogo com forte carga dramática, em que o louco não entende a opção de Jesus e desfila tudo o que de ruim farão em seu nome. Domingos Montagner agiganta a cena, retira dela uma força exuberante e expõe a grande traição que muitos dos seguidores de Cristo fizeram às suas ideias.

            Diferentemente do ocorrido em 2013, quando abundamos em festivais teatrais de baixíssima qualidade, em espetáculos escolares e primários ― e, fora dos festivais, com o tradicional pastelão feito por um comediante global ―, o ano de 2014 começa com melhores ares nos nossos palcos. Oxalá assim continue!

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FOTOS DE MARCO VASQUES

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