O OLHO AZUL DA FALECIDA

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 O Olho Azul da Falecida é o novo espetáculo do grupo

Teatro Sim… Por que Não?!!!

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

O Teatro Sim… Por Que não?!!!, um dos grupos teatrais mais experientes de Santa Catarina, estreou um espetáculo novo. Trata-se da peça O Olho Azul da Falecida, do dramaturgo inglês Joe Orton. O grupo arregimentou uma série de profissionais bastante experientes para essa montagem. O portentoso cenário ficou ao encargo de José Dias. Nívio Mota responsabilizou-se pela música, enquanto a iluminação ficou por conta de Domingos Quintiliano. Toda a grande equipe técnica e o elenco composto pelos atores Ana Paula Possapp, Gabriel do Nascimento, Ismar Medeiros, Nazareno Pereira, Sérgio Candido e Valdir Silva estão sob a direção de Neyde Veneziano, que já dirigiu o grupo em …E o Céu Uniu Dois Corações, em 2005.

            A peça é um petardo de humor. O Olho Azul da Falecida foi escrita nos anos de 1960, pelo polêmico dramaturgo Joe Orton, assassinado aos 34 anos. É uma farsa amigada com a comédia de erros, que também se utiliza do humor ácido e absurdo, típico da cultura inglesa. Loot é seu título original: algo como pilhagem ou saque. Aqui no Brasil, a peça ganhou o esdrúxulo nome de O Olho Azul da Falecida. Com forte apelo popular, a peça utiliza alguns clichês bastante famosos no teatro, no cinema e também na literatura: uma mulher cheia de artimanhas e ambiciosa, um velho meio estúpido e doente, jovens que se acham espertos e um detetive que transita entre a perspicácia de Sherlock Holmes e o atrapalho do inspetor Clouseau.

            Uma das características da dramaturgia de Orton era a ofensa a alguns dos pilares da sociedade burguesa, tais como a igreja, a polícia e a família. De maneira geral, suas peças estavam bem arraigadas à tradição das farsas populares. Assim, montar esta farsa anárquica de Joe Orton, bem como qualquer farsa, exige alguns cuidados, entre os quais estão: como adaptar um texto tão satírico; como transitar e utilizar chavões cênicos e interpretativos, sobretudo aqueles que envolvem roteiros de investigação e comédia de erros; de que forma adquirir ritmo para que a graça do espetáculo flua e faça o espectador se interessar tanto pela resolução do “mistério” quanto pelo destino dos personagens; como fazer com que o público também possa usufruir de um dos principais elementos da farsa, que é aquela sensação de vingança contra a realidade ao entregar-se ao riso solto e irônico. Enfim, trata-se de uma dramaturgia que exige um equilíbrio cênico bastante delicado.

A dramaturgia permitiria ao grupo fazer com que o texto se aproximasse dos nossos tempos com mais clareza e efetividade. Montar um texto desses, com as opções estéticas feitas pelo grupo, só faria sentido se alcançássemos um espelhamento crítico dos tenebrosos acontecimentos do nosso tempo. Necessitaria, também, alcançar um tom de leveza que pudesse jogar o espectador para dentro da fábula, para dentro das tramas já que, via de regra, o espectador já sabe ou intui o desfecho. Cabe ao espectador ser levado pelo jogo de cena, pelos personagens, porque o destino deles já está previamente dado ou sugerido.

Apesar de toda a experiência e de uma equipe capacitada, a montagem do Teatro Sim… Por Que Não?!!! não consegue atingir o equilíbrio necessário capaz de seduzir o espectador. De acordo com Patrice Pavis, “a farsa deve sua eterna popularidade a uma forte teatralidade e uma atenção voltada para a arte da cena e para a elaboradíssima técnica corporal do ator”. Assim, podemos começar pelo elenco: são seis personagens em cena, sem contarmos com a falecida (“interpretada” por um manequim). Excetuando-se, Meadows, interpretado por Valdir Silva, os demais têm importância capital na trama. Equilibrar em cena cinco atores, sabemos, é um trabalho árduo. O que percebemos é que Ana Paula Possapp, por enquanto, foi a única que, digamos, captou a mensagem de Orton, e agrega à sua personagem tanto o humor rasgado, cartunesco quanto aquela melancolia e ironia típicas do humor inglês. Ou seja, ela engole a cena, inclusive de atores experientes como Nazareno Pereira ou Ismar Medeiros, que ainda estão muito agarrados ao tom caricatural, faltando-lhes aquele toque de profundidade humana que comporia os seus personagens. Gabriel Nascimento e Sérgio Cândido não comprometem, mas também não alcançam o nível da excelente interpretação de Ana Paula, o que evidencia o problema de equilíbrio entre os demais atores.

            O que se pode perceber é que o espetáculo também apresenta problemas na sua estrutura rítmica. Falta, para grande parte do elenco, uma intimidade com o texto e com suas fabulações, ainda mais de uma peça tão estruturada no “entra e sai” de cena. Talvez com um tempo maior de apresentações isso se ajuste, mas seria um ponto a ser olhado pela direção: há alguns espaços vazios e alguns tempos que precisam ser corrigidos justamente para fazer a plateia rir. A cena, por exemplo, quando o caixão perde a lateral e se revela, apenas para a plateia, o dinheiro que tem dentro, está muito bem ensaiada, engraçada e tragicômica. No entanto, a cena em que o detetive encontra o olho azul da falecida, ou a sua descoberta do corpo fora do caixão, não apresenta um resultado convincente.

            No que se refere ao gestual, fica evidente o trabalho empreendido pela diretora Neyde Veneziano, sobretudo na composição facial dos personagens. No entanto, algumas gags visuais, amparadas nos cartoons, geralmente não provocam surpresa, seja pela referência apontada, seja pela obviedade da própria gag. Outro ponto que poderia apresentar um trabalho mais ousado seria a iluminação, que, embora não comprometa, poderia ser pensada de modo a valorizar não somente a trama, mas o clima de “mistério”, quase neogótico.

Todo o humor negro do trabalho se esgarça, se enfraquece porque há muito desequilíbrio na peça. É possível que esse seja o desafio do trabalho: harmonizar a atuação do elenco e ritmar as inúmeras variações cênicas apresentadas. Além disso, seria interessante também incorporar mais a ousadia anárquica de Orton. Talento e experiência o grupo Teatro Sim… Por Que Não?!!! tem de sobra pra isso.

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FOTOS: CLEIDE DE OLIVEIRA

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