UZ – apontamento crítico-poético

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Exercício crítico-poético a partir de Uz, novo espetáculo da Cia La Vaca

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha 

Um disclaimer

“Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora…” este é um verso da canção Fado Tropical de Ruy Guerra e Chico Buarque. Um verso fora do contexto e do significado da canção original, mas que, assim, de forma independente, nos serve para expormos o que sentimos ao assistir Uz, a nova montagem do grupo La Vaca. Avisamos de antemão, que nossos corações estão entristecidos e sinceramente chorando por causa da decepção.

Prólogo: a expectativa

La vaca. Uma das companhias mais criativas do teatro feito nesse sul do mundo. Eles tem muita experiência no humor, conseguiram forjar carreiras sólidas, forjar um público bastante atento a seus trabalhos. La vaca: eles sempre se mostraram criativos, tal como o nome com que se batizaram. Eles foram tão versáteis em seus trabalhos anteriores. O grito escrachado e cada vez mais necessário de As felicianas. O bailado solitário e poético de Eu faço uma dança que minha mãe odeia. A delicadeza melancólica de O homem de Agrolândia. A grandiosa densidade de Kassandra, peça que elevou o teatro feito por aqui a um outro patamar artístico. Quantas companhias conseguem produzir uma peça que estabeleça, na narrativa histórica do teatro de sua região, um antes e um depois? Kassandra conseguiu. Há pelo menos 3 espetáculos, esta vaca, La vaca, está nos munindo do saudável leite do teatro.

Primeira Jornada: o começo promissor

Éramos esperança quando as luzes da plateia se apagaram. A peça inicia, de maneira brechtiana, avisando o espectador das jornadas pelas quais, Grace, a protagonista, irá passar. Após o aviso, a cena se abre com uma família sentada numa mesa de jantar. Há uma aparente harmonia entre eles. Visualmente a cena é promissora, bem iluminada, nos diz que ali há pessoas que merecem ser acompanhadas em sua jornada. Sabemos que não será uma jornada fácil. Grace, a mãe, quando fica sozinha em casa, recebe uma visita de Deus, não em pessoa mas em voz. Este, aos moldes daquele Deus sarcástico do antigo testamento, exigirá que Grace mate um dos dois filhos. Grace tenta argumentar, encontrar outra saída, Ele não aceita. Como a fé de Grace no Pai é mais forte, ela parte, então, para sua jornada de mãe obrigada a matar um dos filhos. Estávamos contentes, até então, com que víamos.

Intermezzo 1

Catedrais de vozes se pronunciam na sala de jantar. Um coração de mulher. A amargura do livro de Jó se anuncia. Cruel é o amor divino que tudo nos rouba, que tudo consome. O que justifica uma canção entoado por notas tão terríveis, vocifera a mulher em desespero de abandono. O monturo é a morte de sua carne. Sacrificar o homem para ter amor entre os homens. O humor divino não tem mais graça, não tem mais dorso em que navegar. Mas é preciso se acorrentar a deus. Prometeu desnudado da pira, puro sacrifício. A voz divina, surda. O outro necessita ressoar. Apagar a carne pródiga, para alimentar o desejo insano. O silêncio não se fez audição, a música cancela a carne. Medeia impossível de ato. Dança do intelecto em fase terminal. Um deus que não dança, só pode acreditar na gramática dos erros. Amor renegado, amor estilhaçado por forças não autorizadas. O espírito agora está conduzido pelas heras não palpáveis. Arenoso é o simulacro da verdade. Não rir e chorar. Talvez ria de forma altiva. Não. Sem clareira no olhar, sem mirar a fronteira das próprias faces. Vidros e espelhos são demônios, quando visceram nossas moradas. A morada fica desabitada de suas almas, dos espíritos. A casa não é mais linguagem dos personagens.

Segunda Jornada: ladeira abaixo

Aos poucos, o texto do dramaturgo uruguaio, Gabriel Calderón, vai se desdobrando. Se revelando. O que temos, naquele lugar chamado Uz, são pessoas que construíram suas vidas sob o signo da hipocrisia: Grace e o marido, a vizinha, o pastor, o açougueiro e sua filha, são todos movidos pelo jogo da aparência e da repressão religiosa. Excetuam-se, um pouco, o filho adolescente e a filha autista. Estes personagens de Calderón são carne viva para que o encenador possa trabalhar e possa nos expor, porque cada um deles é também cada um de nós. Somos nós que estamos naquela comunidade: com as hipocrisias, as falsidades, os medos, as solidões, as tristezas, os desejos de que nossos amores sejam correspondidos. Então, por que essas pessoas, aqui trazidas pelo olhar do diretor Renato Turnes, não se revelavam, não aconteciam, não se colocavam para o público como deveriam ser: falhas, densas, humanas, demasiado humanas? O que estava acontecendo com a montagem? Nos perguntávamos: por que a direção está escolhendo o caminho óbvio do humor rasteiro, quando era óbvio que aqueles homens e mulheres pediam muito mais?

Intermezzo 2:

Tomada de outros sentidos. Sem novo anúncio, as partituras se desalinham em pequenas pobrezas e derrisão nula. Diapasão de vergonha na face da mulher, sempre namorando uma busca de verdade, já não mais se faz anunciação. O divino, o dionisíaco se estatela no palco, como frango que tem o pescoço torcido. Não mais que um breve espasmo de canção. Sangra o clichê sem proporções. Não mais cavalo selvagem, não mais poética das margens. Um amontoado de notas concordantes com a pauta atual: todas as margens e fronteiras não quebradas. A manutenção do erro como método de violação. Face sem carinho. É hora de montar Laurence. O filme na cabeça, máquina de lembranças. O sempre poderia ficar na memória do riso. Engolir as lágrimas de vergonha. Libertação ocultada pelo espasmo de pilhéria, quando a face terna, transformada, toda despida, esperava outra roupagem. Não, não são calças, blusas, calcinhas, sutiãs e blusas caindo do céu. É da roupagem íntima que o nervoso não irrompido se fez falso. O corpo todo para a plateia. Mas o estrondo do fácil se torna adorno: vence o sorriso solar de uma elite acostumada consigo mesma. Uma dor hipócrita seria capaz de apagar a luz, já que as cortinas foram fechadas para que nos vestíssemos de nossas vergonhas, mas elas se tornaram pueris peças ou roupagem cômica, quando deveria vigorar o silêncio mordido de dor.

Terceira Jornada: slut-shaming

Aos poucos, à medida em que os personagens, vão retirando suas máscaras, vão acontecendo revelações. O texto parece dizer que quanto mais sem máscaras, sem as muletas da hipocrisia, mais frágeis são aquelas pessoas, mais frágeis somos todos nós. Que decisão tomou o diretor? Optou pela histeria, pelo humor mais fácil, optou para planificar e superficializar os sete personagens em cena. Quanto mais eles gritavam, quando mais eles se contorciam no palco, mais nosso coração sangrava de decepção. Como assim? Que escolhas estéticas são essas que tornam personagens tão densos em meros bonecos histéricos, em pronunciadores de palavrões inúteis? Que olhar é esse que opta pelo slut-shaming mais descarado? Que direção é essa que retirou da cena toda a poesia tragicômica das personagens e do enredo? Éramos perguntas sem respostas a cada grito, a cada cena embolada, a cada piada forçada e embasada nos velhos chavões preconceituosos de sempre. Não, não entendíamos como a companhia com pessoas tão inteligentes pode transformar a jornada de Grace em algo tão desprovido de força poética, de sensibilidade. Não queríamos um drama, por certo. Não queríamos uma tragédia que nos arrancasse lágrimas catárticas. Queríamos apenas rir de nervoso, rir de forma tensa, pois identificada com aqueles habitantes de Uz. Queríamos apenas que aqueles habitantes nos espelhassem, nos retirassem de nossas zonas de conforto. Porém, esta retirada não era da forma como eles estavam fazendo: pelo clichê arrancador de gargalhadas de uma plateia preconceituosa, pelo gesto e pela fala afirmadores de velhos preconceitos sexuais. Queríamos sair da zona de conforto pela sempre desconfortável poesia das fraquezas humanas. Queríamos nos contorcer na cadeira por causa da miséria humana, tão presente no texto e tão desprezada pela direção do espetáculo. Não conseguimos.

Intermezzo 3

Os habitantes não se habitam. Não habitam lugar algum. Não conseguimos encontrar a escritura da carne no emaranhado de desvios. Por que desorientar a alma? Qual o significado de desfigurar a diferença? Tudo igual. Tudo normal para os aplausos efusivos que assomem continentes de amarras pétreas. O fácil impera sobre os escombros de possíveis delicadezas, de canções dissonantes que exigimos. Somos dor no aplauso intenso de tanta estupidez. Escandir o escárnio nessas vidas impossíveis, impossível!

Quarta Jornada – a duração interminável da histeria coletiva

A peça é longa. Não encontramos no programa a sua duração. Mas, parodiando Eugene O”Neill, é uma longa jornada histeria adentro. Sem paradas, sem refresco, sem tréguas. Lembrando, que nos referimos aqui à histeria de forma pejorativa. Nada daquela histeria reveladora, capaz do soco, da desordem, da exposição crua do humano. A histeria aqui é a histeria da atuação confusa, da falta de silêncio cênico, da imprecisão, do caos que se estabelece na cena e que destrói a peça.

Intermezzo 4

Queríamos uma longa jornada vida adentro. Adentrar as perturbações íntimas de estar-em-si. Morar num mundo, mas habitar em outro. Queríamos o desnudar da hipocrisia a nosso favor. Ela foi ao encontro do comum, do ramerrão, do previsível e da perpetuação infinda das nossas crueldades banais. Banalidade do mal, banalidade do bem: rir do que somos com prazer pelo prazer, sem nenhum amargor nas veias.

Quinta Jornada – a decepção

No fim, tudo se revela num plot-twist até interessante, mas já estávamos tão decepcionados, já estávamos tão cansados dos achincalhos a que o texto de Calderón foi submetido, que pouco nos surpreendeu o final aterrador e triste da peça. Tanto tempo já se tinha perdido, que a cena final, por mais poética e impactante que seja, soou apenas como alívio, como um irônico “graças a Deus” e não como um soco, uma punhalada. A palavra decepção tem origem remota no termo decipere, que é fazer cair uma presa numa armadilha, ou capturá-la mediante uma trapaça. A nossa decepção, nesse caso, é dupla. Por termos sido capturados pela expectativa de que encontraríamos uma peça mais cuidadosa no trato da cena e do humano, e por não termos sido capturados pela peça em si, que armou tão descuidadamente a arapuca.

Intermezzo 5

Padres beijam as pias de crianças. Homens se desejam e se transformam, não em açougueiros, não em mulheres, mas em amores. Militares se usurpam e são machos, mas também fêmeas. Meninas se arrastam para beijar suas próprias faces. Açougueiros não cortam às mãos, mas as próprias vísceras. A solidão deseja um abandono, sem gêneros!

Epílogo / coda

Poderíamos pensar que se a peça passar por ajustes, talvez possa se tornar algo a altura do que a companhia já fez. Poderíamos falar no ritmo, falar de cenas específicas, falar de cortes necessários. No entanto, para que Uz ganhe a dimensão que o texto apresenta, seria preciso uma mudança muito maior do que ajustes na estrutura da peça. Seria necessário toda uma mudança filosófica e poética da direção e dos atores a respeito do universo que eles estão retratando. Diferente de Grace, que completou suas sete jornadas, nós temos apenas cinco. Somos frágeis, quase débeis, não vamos conseguir ir além. Eis o final tragicômico de nossa jornada de espectadores de Uz. O que se almejava uma surpresa agradável foi apenas decepção. O que se almejava uma força transformadora e reveladora se mostrou mais do mesmo. Por isso, nosso coração fecha os olhos e, sinceramente, chora.

Não. Sem cama para a tragédia autista. Electra de patins não necessita ser assassinada. Não. Sem Hamlet às avessas, com demônios caricatos, mas com o mundo dentro de si. Não, não e não. Fomos alvo sem tiro.

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FOTOS: MARCO VASQUES

 

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3 respostas para “UZ – apontamento crítico-poético

  • Giorgio Zimann Gislon

    Uma dúvida: Calderón é um autor cristão?

  • Giorgio Zimann Gislon

    Bom, talvez como vocês apontam tenha sido a montagem mesmo o problema, porque o assassinato daquela que vocês chamam de “Electra de patins” me pareceu uma espiação religiosa da peste que assolava a comunidade. Eu quase não acreditei no que assitia.

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