EU CONFESSO!

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  QUANDO ATÉ DEUS SE MEDICA

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

Albert Einstein dizia que não acreditava num Deus pessoal. Dizia que acreditava no Deus de Spinoza, o Deus que se revela na harmonia daquilo que existe e não num Deus que se preocupa com os destinos e com as ações dos seres humanos. Já Richard Dawkins diz que o Deus do Antigo Testamento talvez seja o personagem mais desagradável da ficção: é ciumento, orgulhoso, um controlador mesquinho, injusto e intransigente. Trata-se também de um genocida étnico e vingativo. Dawkins também adjetiva Deus de perseguidor misógino, homofóbico, sadomasoquista, malévolo.

A poeta Hilda Hilst dedicou grande parte de sua obra para falar de Deus. Ela o batizou com inúmeros nomes, entre eles Sem Nome, Cão de Pedra, Grande Obscuro, Cara Cavada, Sumidouro, Mudo Sempre. A certa altura, Hilda se pergunta em um poema: “O que esperais de um Deus? / Ele espera dos homens que O mantenham vivo”.

Esses são três exemplos díspares quando o assunto é Deus. Uma vida só não seria suficiente para reunir tudo o que já foi dito, escrito e pensado sobre esse tema. Pode-se dizer que Deus é um clichê, ou até mesmo um assunto esgotado, que já é bem difícil falar algo interessante sobre o tema.

Antônio Cunha, autor e diretor da peça “Eu Confesso”, resolveu encarar o clichê e conseguiu tirar dele um excelente texto. “Eu confesso” dá voz a Deus, que relata seu ponto de vista sobre a criação do mundo. Diferente de um dos epítetos de Hilda Hilst, o Deus pensado por Antônio Cunha não é um mudo sempre, mas um “homem” que fala, que expõe ao público seus motivos, suas vontades, seus desejos e sustos durante todo o processo de criação do mundo. O ator Édio Nunes, velho conhecido dos nossos palcos, interpreta um Deus que não é esse ser harmonioso que pensava Spinoza ou Einstein, mas também não é esse mau caráter defenestrado por Dawkins.

 Trata-se de um Deus que usa a metáfora da criação para falar do agora, do momento pós-moderno que estamos vivendo. Eis a grande força do texto de Antônio Cunha: ele está profundamente conectado com o presente, toda a sua força cômica e irônica se dá porque é um texto que critica acidamente a atualidade política e social, não apenas brasileira, mas do mundo ocidental. Cada vez que Deus se exalta, cada vez que ele toma seus remédios e fala da humanidade que ele criou, há também um tom de amargura, de melancolia ― não diríamos de arrependimento, mas um tom de constrangimento por ter criado os homens, por ter nos dado o livre arbítrio, por permitir que vagássemos, divagássemos e nos reproduzíssemos por sobre o mundo.

A encenação é inteligente.  Ela não se quer polêmica, não se quer blasfematória, ou iconoclasta de toda a tradição religiosa que domina boa parte do mundo há milênios; também não se permite ser uma aduladora da fé ou da religiosidade judaico-cristã. O que temos é o apoderamento de um personagem (real e existente para alguns, mitologia para outros) para fazê-lo falar sobre o palco, fazê-lo dizer verdades engraçadas e aterradoras sobre cada um de nós, os seus criados.

A presença do remédio na cena ― que metaforiza uma suposta doença divina ― é a evidência das nossas convulsões sociais, das nossas crueldades requintadas e dos nossos sistemas de controles cada vez mais coercivos, embora maquiados de liberdade irrestrita. A montagem do Grupo Teatro Armação é precisa, justa. Não há excessos. A atuação de Édio Nunes é simples, em ritmo de diálogo com os espectadores ― filhos da divindade e personagens do espetáculo. O cenário e o figurino apresentam a imagem asséptica que criamos do criador; no entanto, a presença de cápsulas de remédios nos remete, ao mesmo tempo, à ideia de um Deus decaído, trancafiado em um quarto de enfermaria em um monólogo delirante embalado ou curado pela doses cavalares de entorpecentes. A iluminação e a sonoplastia são bem desenhadas, sem exageros e redundâncias.

                Nós também confessamos que em meio a produções que tentam a transgressão a qualquer preço, que ignoram a deglutição do texto, que perderam a noção de que palavra é corpo, o espetáculo “Eu Confesso!” é um desses trabalhos que é coerente em tudo o que se propõe e como tal só pode ser julgado com um trabalho que é o exercício complexo de alcance da simplicidade.

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FOTO 1 : Márcia D´Ávila

FOTO 2 : Renato Gama

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