Crítica do espetáculo Das Águas, da Cia Carona

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Das Águas, o novo trabalho da Cia Carona

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

 

             Em 2011, a Cia. Carona de Teatro, uma das companhias mais respeitadas de Santa Catarina, iniciou um projeto ousado: reunir uma série de artistas para criar um espetáculo que trouxesse à tona sentimentos, memórias, sensações a respeito das constantes enchentes que assolam Blumenau e região. O resultado desse encontro de atores, músicos, artistas visuais, escritores resultou na peça Das águas, que está circulando por Santa Catarina.

            Sob a direção de Fábio Hostert, com texto de Gregory Haertel e atuação de James Beck, PépeSedrez, Sabrina Marthendal e Sabrina Moura, a peça é um conjunto de personagens fragmentados que se desdobram entre os quatro atores em cena. A concepção visual de Charles Steuck e de Aline Assumpção cria um espaço no qual chove ininterruptamente. Como o espetáculo é ambientado no ápice de uma enxurrada de água e, nestas condições, uma das primeiras perdas é a da energia elétrica, a iluminação se dá por velas e lanternas. O palco é um quadrado no centro do teatro e o público fica ao redor, envolto também no clima denso que a escuridão e o barulho da água proporcionam. Em cada canto do palco, um ator se desdobra em múltiplos fragmentos que vão construindo espectros, pedaços, tragédias, revoltas, erros e acertos de quem é surpreendido por uma enchente.

            Das águas é uma peça contundente em sua proposta, mas que não alcança o grau máximo de força, de choque ou de catarse, porque tem uma concepção rítmica que prejudica o andamento e o encadeamento das cenas. O começo da peça é bastante lento, levando um tempo até que esse universo de despedaçamento humano se estabeleça. Quando os personagens começam a falar, e há algum indício de diálogo entre eles, é que os dramas e a dramaticidade vêm à tona, florescem e se fortalecem na cena. Um dos problemas é que a fragmentação das personagens desequilibra a peça, porque os fragmentos não têm o mesmo nível de elaboração cênica e física. Falta o que aqui, aos olhos de muitos, parece uma contradição: a chamada unidade no uso dos fragmentos. O espetáculo padece de organicidade em seu mosaico. No entanto, com a experiência da Cia. Carona e de seus integrantes, o problema pode ser resolvido e o espetáculo pode ganhar a força vital que já apresenta em algumas cenas, só que de maneira desorganizada.

          Em alguns momentos a carga poética é intensa, pulsante e se vê ali um tipo de teatro que se apropria da experiência trágica e real e a transforma em outro tipo de experiência, que emula também tragicidade e realidade. Porém, outros fragmentos são rápidos demais, superficiais demais;alguns chegam até a artificiliadade, sobretudo quando Gregory Haertel resolve escrever numa segunda pessoa do singular, gramaticalmente correta, mas que acaba por se afastar demais da fala cotidiana, dando uma pseudoliteralidade ao texto, e, apesar de apresentar momentos de intensidade poética, opta por uma linguagem formal incômoda. Nos momentos em que os personagens falam de forma mais coloquial, a peça ganha dimensão de provocação, de catarse. É nesse momento que o público é chamado, pela empatia, a pertencer realmente àquela tragédia. Há, no texto, todo um residual poético que precisa ser mais bem explorado pelos atores. O grupo tem a nítida opção por chamar o público para dentro daquele mundo, por isso a necessidade de se repensar em jogar mais com este espectador que já não é um observador passivo. É um vivente de tragédias, tais quais os personagens.

        Se o figurino, a luz, a atuação são fatores positivos na peça, o uso da música poderia ser repensado. Há momentos em que ela funciona bem, porém em alguns outros a música serve de muleta para ampliara emoção do espectador, caindo no velho e conhecido clichê da captura emocional pela música. Talvez o grupo precise rediscutir a questão do ritmo, do silêncio. Necessite buscar equilíbrio e melhor uso das antíteses que colocam em cena: luz/escuridão; sólido/líquido; vida/morte; silêncio/ruído e lucidez/sanidade.

        Em algumas cenas, por exemplo, apenas a respiração dos atores, o barulho dá água caindo já seria música suficiente para emocionar o público, para jogá-lo no universo asfixiante proposto pelo espetáculo. Não há a necessidade de mais uma trilha sonora que é utilizada como reforço emotivo, posto que os atores e a cena podem exaurir e conduzir o espectador para o caminho proposto pelo grupo. Das águas é um espetáculo necessário e que diz muito, não apenas para quem viveu numa situação semelhante, mas para todo aquele que se compadece com os infortúnios humanos. Porém, poderia dizer muito mais se fizesse alguns cortes, repensasse seu ritmo, e aprofundasse mais ainda esses pedaços de personagens que despontam no palco. Das águas é um trabalho corajoso, de enfrentamento e têm, em si, todos os elementos necessários para se tornar uma das mais vigorosas experiências poéticas da cena catarinense. Oxalá assim aconteça!

 

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