crítica do espetáculo Tenha Dó – Pocket Show

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TENHA DÓ – POCKET SHOW E A ARTE DO RISO

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

Um dos significados menos usados da palavra humor é moléstia e amargor, pois sua origem remonta à bílis, ao fel. Para os antigos, seriam os humores do corpo — o sangue, a cólera, a fleuma e a melancolia — que causariam as enfermidades. A medicina e a filosofia muito já se ocuparam do humor-moléstia. Com o passar do tempo, o outro sentido da palavra humor foi ganhando espaço e chegando a esse senso comum de hoje, que é a ideia de cômico, engraçado e irônico. No entanto, talvez nenhuma outra arte tenha conseguido mesclar tanto os dois sentidos de humor quanto o teatro, sobretudo nos espetáculos de palhaçaria. Todos os grandes clowns, bufões e afins carregam, por trás da alegria, do riso, do gesto engraçado, aquele outro significado de humor, sobretudo a melancolia, que, segundo Brunetto Latini, é também chamada “a cólera negra”, que é “fria, e seca, e tem seu assento na espinha”.

O espetáculo Tenha Dó – Pocket Show, criação coletiva de Gabriela Leite, de Márcio Momesso e de Rhaisa Muniz, é um desses que consegue reunir as diversas acepções de humor. Com a proposta de ser um pocket show que apresentará novas versões para velhas canções infantis, os palhaços Lynda Colapso (Rhaisa Muniz), Flor (Gabriela Leite) e Boró (Márcio Momesso) conseguem fazer um espetáculo cheio de camadas, sobretudo pela descortinação irônica que faz das obscenidades e das violências dessas canções. Esse pocket show não foge em momento nenhum de todos os clichês do gênero: a participação do público, as trapalhadas com os gestos, o jogo com a música, as piadas de duplo sentido, as caretas. Entretanto, consegue usar isso a seu favor, pois os atores estão muito naturais em cena; são carismáticos e têm um excelente domínio de corpo e voz. O bom domínio musical do trio conta muito, ainda mais nos momentos em que eles devem parecer maus músicos, ou seja, a aparente desafinação e falta de ritmo no violão são pontos altos do espetáculo, que não é apenas riso. Há nele aquele outro humor: a melancolia, a língua ferina, a ironia cortante que se acumula na espinha do espectador. Ao fazer troça de canções como “Atirei o pau no gato”, “Boi da cara preta” ou a reinvenção de “A baratinha”, para que caiba no contexto da peça, a trupe toca em questões essenciais dos tempos modernos, tais como bullying, usurpações aos direitos infantis e pedofilia.

A dramaturgia opta pelo uso, em alguns momentos, de uma linguagem chula, algo que jogou a censura do espetáculo para 14 anos. Não que crianças menores não possam assisti-lo. O problema é que ainda estamos numa sociedade hipócrita e moralista e talvez por isso a produção da peça tenha se garantido com tamanha restrição de público. Por outro lado, esse afastamento do público infantil deveria ter permitido que o elenco adentrasse mais e expusesse melhor algumas questões subjacentes às canções infantis. E aí talvez esse seja um dos pontos cruciais a ser pensando pelo grupo — a questão da dramaturgia —, pois, apesar de adentrar aqui e acolá nas questões urgentes da infância e da adolescência, ao fazer um espetáculo direcionado a jovens e adultos, poderia construir uma dramaturgia mais ácida e que privilegiasse a crítica às estruturas sociais, combatendo, com mais intensidade, a hipocrisia e o moralismo em que estamos refugiados.

No entanto, no todo, o que temos em Tenha Dó – Pocket Show é um trabalho sério realizado por jovens que estão investindo na pesquisa da linguagem universal da palhaçaria. Há que se destacar o trabalho vocal dos atores, realizado pela diretora e atriz Barbara Biscaro, bem como as atuações, que demonstram domínio técnico sem o exibicionismo amadorístico que costuma povoar o gênero. Se o grupo investir numa partitura dramatúrgica mais ácida e no aprimoramento rítmico do espetáculo, o uso das acepções de humor será completo, ou seja, a peça poderá molestar, incomodar e divertir ainda mais os espectadores, porque técnica, brilho, inteligência e poesia a tríade de palhaços já apresentou no palco da Casa das Máquinas, no último final de semana.

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FOTOS: Cristiano Prim

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