Crítica do espetáculo O SOM DAS CORES

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A PROMESSA TÉCNICA DE O SOM DAS CORES

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

[texto publicado no jornal Notícias do Dia em 19/08/2014]

            Durante muito tempo o texto dramático era considerado o elemento mais importante do teatro, ocupando lugares de honra, tanto na encenação, quanto nos estudos teatrais. O texto era algo praticamente intocável, todos os outros elementos que compõe a encenação deveriam se submeter a ele. No século XX esse predomínio do texto arrefeceu. Não há mais aquilo que Jean-Marie Piemme chamou de “dupla figura terrorista de fidelidade e traição”, ou seja, os encenadores não precisam se submeter ao texto como o objeto intocável e nem traí-lo com cortes, supressões, acréscimos.

            As experiências mais fortes do século XX, no que tange ao teatro, imiscuíram o texto na cena, a tal ponto de que o teatro – tanto o texto dramático, quanto a encenação – transformou-se num texto espetacular, tanto espetáculo do discurso quanto discurso do espetáculo, conforme nos diz Patrice Pavis, outro importante estudioso do teatro.

            Tendo como partida essa perspectiva, de que forma analisar um espetáculo como O som das cores, produção da experiente companhia mineira Catibrum. Um espetáculo cuja engenharia cenotécnica é primorosa, além de apresentar soluções de luz, música e bonecos orgânicos e bem manipulados. No entanto, o espetáculo O som das cores sucumbe diante de um texto assustadoramente ruim.

            Baseado num livro do taiwanês Jimmy Liao e em poemas de Rainer Maria Rilke, o espetáculo conta a história de Lúcia, uma menina cega, que sai atrás de seu cão, pois ela acredita que o animal roubou seus olhos. Então, ela entra num labirinto de fantasia e imaginação, enquanto procura seus olhos, vai conseguindo ouvir, cheirar, sentir e ver inúmeras coisas e a si mesma.        Contado assim, parece promissor, no entanto isso é transformado numa salada de auto-ajuda pseudo-poética que contamina toda a beleza plástica do espetáculo. Ou seja, o texto dramático pode não ter mais o poder que tinha antes, pode ser apenas mais um elemento dentro da encenação, no entanto, de todos os elementos ele é aquele que se falhar, corrompe os outros elementos de maneira peremptória.

            Foi o que aconteceu no segundo dia do Festival Internacional de Formas Animadas, no Teatro Álvaro de Carvalho, porque O som das cores é um espetáculo promissor, tecnicamente bem executado, mas que é atropelado por um texto didático, frágil, despossuído de qualquer qualidade poética e dramática. Depois do império do texto no teatro tivemos, também, o império do ator e, por fim, a vez do diretor. Hoje, como bem acentua Eugênio Barba, o importante é compor uma dramaturgia para cada elemento cênico e ordenar o todo de acordo com as opções estéticas de cada coletivo. A dramaturgia, hoje, é vista como um todo. No teatro de animação, sobretudo, este todo necessita estar muito bem temperado.

 

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