Crítica do espetáculo Circo Poeira

 

 


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Circo Poeira e a necessidade

 de se ultrapassar a técnica

 

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

 

A sinopse da peça “Circo Poeira” nos informa que se trata de um espetáculo de Circo, Teatro e Boneco que conta de maneira poética e divertida a história do circo por meio das recordações de um Velho Mestre. Esse personagem seria o narrador da história, que relembra o auge de seu circo e o ápice de vida no circo. Dessa forma, surgem do fundo de sua memória os números que compõem o espetáculo.

Com direção e atuação de Caio Stolai, Circo Poeira cumpre somente parte do que promete na sinopse. Trata-se de um espetáculo simples, com boa trilha sonora e com a manipulação dos bonecos muito bem executada por Stolai. Porém, conforme vimos no espetáculo O Som das Cores, a técnica bem executada não sustenta um espetáculo; é preciso algo que dê liga, dê força e que coloque aquela energia técnica de pé. Em resumo, se faz necessário humanizar o mundo inanimado, e, para isso, é preciso um passo adiante da técnica.

O principal problema da peça Circo Poeira é a construção desse personagem “narrador”. A princípio deveríamos estar sempre conectados com ele, deveríamos estar vendo o que ele vê por certo, mas também deveríamos estar sempre o vendo também. Não é o que acontece. Muitas vezes o narrador é esquecido num canto, deixado de cabeça baixa, enquanto o número acontece no picadeiro. Pouco se estabeleceu o jogo da memória, pouco nos envolvemos com esse homem velho que deseja um mundo quase impossível de ser reconstruído, pois a forma com que Caio Stolai dirigiu seu espetáculo esquece justamente daquilo que precisava ser mais lembrado: a memória e a saudade desse homem.

E qual saudade? Com velhice que arrefece as forças físicas do personagem-pivô, vem a impossibilidade de viver e ensinar as peripécias circenses. Ele viveu do e para o circo. Então, resta a ele reconstituir, via memória, o seu mundo perdido. No entanto, é justamente este personagem-narrador que não ganha as feições poéticas que deveria conduzir o espectador aos números apresentados no palco. Caio Stolai, que executa e manipula com firmeza os números, peca justamente em não criar os contornos do personagem que tem por objetivo enternecer o espectador com suas lembranças. Por isso o espetáculo Circo Poeira pede a unidade poética proposta. Sobra-nos o número da bailarina, o número do capoeirista, o número dos elefantes, o malabarista de bolas e facas, enfim, a vida circense aparece nas cenas desconectada da figura do Velho Mestre.

Alguns personagens até tentam uma interação com esse Velho Mestre, mas tudo é feito de maneira rápida, pouco concentrada e, em certos momentos, até didática demais. Trata-se de um espetáculo com boas possibilidades de se tornar uma obra mais tocante, mais coesa, mais poética na mistura de saudosismo e memória, mas que precisaria trazer efetivamente para a cena esse “narrador” que foi tão bem confeccionado fisicamente, mas que permanece inanimado no palco.

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