Crítica do espetáculo Diagnóstico Hamlet

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Diagnóstico Hamlet, a linguagem a serviço do teatro

 

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

 

Hamlet é uma dessas obras que permeiam o imaginário até das gentes que nunca leram ou viram-na em uma montagem. Suas falas, sua fábula, seus personagens são bastante conhecidos. Trata-se de uma peça muito adaptada para todas as linguagens artísticas. E como acontece com os clássicos, nesse sentido, Hamlet também é um paradoxo: parece que não há mais possibilidade de fazer algo novo, e é justamente dessa peça tão conhecida que pode surgir ainda algo inusitado, febril, diferente. Foi o que aconteceu com a peça que encerrou o 8º FITA: Diagnóstico Hamlet, produção da companhia espanhola Pélmànec, trouxe para os palcos de Florianópolis uma montagem contemporânea, ousada, prenhe de sentidos, de sons e fúrias, e que renova, com a linguagem dos bonecos, o clássico de Shakespeare.

 

A Companhia Pelmànec tem longa trajetória no teatro de animação e se percebe sua experiência técnica e artística nessa montagem. Sob a direção de María Castillo, o ator Miguel Gallardo, também responsável pelo texto, se desdobra de forma magnífica nos diversos personagens da peça de Shakespeare, todos relidos de forma profundamente atual. O destaque da peça, sem dúvida, é Miguel Gallardo, um desses raros atores/manipuladores que conseguem sumir quando o boneco que manipulam fala. Ele está e não está na cena. Se revela e se oculta de acordo com a necessidade técnica do trabalho.

 

Mas Diagnótico Hamlet é ainda mais primoroso porque Gallardo não é apenas o manipulador, ele é também o personagem principal da peça, que está em constante diálogo com Max/Hamlet, com a Mãe de Max/Gertrudes e com Ofélia. Além disso, o jogo cênico se completa com um uso surpreendente de projeções, que se apoderam do internetês para dar ainda mais tensão à cena. Diagnóstico Hamlet é um desses trabalhos para ficar remoendo por dias, não apenas por conseguir reler Hamlet de forma surpreendente, mas também porque se estabeleceu como uma peça reveladora das solidões, dos medos, das agruras desse, por assim dizer, homem tecnológico que estamos sendo. Discute a solidão globalizada e os olhares institucionais sobre o homem, sobre o medo e sobre a loucura. Não há como não pensar nos estudos de Michel Foucault sobre a loucura e os métodos repressores e controladores desempenhados pelas “sólidas instituições nacionais.”

 

No entanto, não é com dizeres que se faz teatro. O teatro, há muito, não acontece mais na palavra. É na cena, na organização de todos os elementos cênicos que uma obra teatral se sedimenta e vive. Diagnóstico Hamlet consegue aliar uma trilha sonora incrivelmente bela, uma atuação excelente, uma partitura de luz sóbria, que dialoga com as ações dos personagens, a relação visual que mergulha tanto na tecnologia quanto nas artes visuais. Enfim, é um espetáculo em que as linguagens são manipuladas com maestria e excelência técnica.

 

Depois de uma semana com a maioria dos espetáculos difíceis, o 8º FITA encerra com uma obra-prima. Oxalá esse tipo de espetáculo passe a ser o critério base para a escolha das peças nos próximos festivais. O poeta dinamarquês Peter Poulsen, em seu poema “Se eu fosse Hamlet”, presenteou a literatura com uma das mais bem-humoradas releituras da obra de bardo inglês. Diagnóstico Hamlet escolhe por aprofundar a condição de abandono do homem no mundo contemporâneo. Não sofre o simplismo, muito comum na montagem desse espetáculo, de transformar o personagem Hamlet no centro de uma discussão familiar, porque o próprio Shakespeare está discutindo mais que isso. Assim, Diagnóstico Hamlet escancara as portas instáveis de nosso mundo, de nossas vidas. É um trabalho cruelmente belo.

 

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