Crítica do Espetáculo Get Out!

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TEATRO INCOMUM, TEATRO DENTRO

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

 

            O 21º Floripa Teatro foi mais uma vez palco para a companhia mineira 4los5. Ano passado eles trouxeram para o festival a peça O outro lado. Neste ano, o grupo apresentou dois espetáculos: Get Out! e Humor. Nota-se que a trupe está em plena produção e, sobretudo, produzindo peças com um teor ético e estético bastante contundente. Estão, também, à procura de uma linguagem e da construção de uma poética que os identifique. Get Out!, monólogo em que Assis Benevenuto assume uma tríplice jornada: dramaturgo, diretor e ator, traduz alguns aspectos desta procura: um teatro simples, sem grandes teses, autoral, irônico e, sobretudo, muito técnico e poético.

         A escolha por dirigir, atuar e escrever – geralmente – é arriscada, pois, de uma forma ou de outra, limita o olhar do criador, ou seja, não há um olhar externo acompanhando a cena. Não é o caso de Assis Benevenuto, que consegue transitar muito bem nas três funções. Seu texto é contemporâneo, metalinguístico, cheio de referências pop e de humor. Sua direção é contida, bem delimitada e consegue fazer com que a sua interpretação seja o ponto forte do espetáculo. Temos um narrador que vai contando suas agruras, entre elas o medo de avião, e vai, ao mesmo tempo, desenrolando uma ácida crítica ao teatro, à vida e ao cinema contemporâneos. Além de criticar um tipo específico – e muito presente nos nossos tempos – de intelectualidade que se baseia muito nos conceitos e nas ideias mais estapafúrdias possíveis para explicar resultados estéticos muito ruins e pífios.

         Get Out! é uma peça muito simples que penetra de forma bem aguda nos espectadores. Muito da sensibilidade tocante, presente no palco, se deve ao talento extraordinário de Assis Benevenuto e da companhia 4los5, que vêm pesquisando a linguagem intimista há algum tempo e investindo na construção de uma dramaturgia própria.

         A trupe se apresenta, também, com o subtítulo de quem faz teatro comum, no entanto, o que vimos no palco do Sesc Prainha foi a realização de um teatro bastante incomum. Um teatro técnico, simples, sem grandes invenções, sem teses absolutas. Um teatro profundamente arraigado no humano – isso não é pleonasmo, já que o que mais graça em nossos palcos são espetáculos que ignoram o aspecto poético da cena. Em Get Out!, temos no palco um ator que nos joga para dentro e não apenas nos emociona, mas faz com que saiamos do teatro com aquela sensação de vazio, de perturbação, de mundo fraturado. O cenário, a dramaturgia, a iluminação e a partitura de cena estão a serviço do ator; tudo que é posto em cena está inteiro, não há elementos de excesso. Esta edição do Floripa Teatro foi pródiga em bons e excelentes espetáculos. Oxalá seja o início de uma mudança perene.

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