Crítica do espetáculo Interferências Schwanke

Jéssica Michels (4)

CONTEMPORÂNEO E NÃO CONTEMPORÂNEO

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

            Luiz Henrique Schwanke foi experimental e transgressor até a sua morte, em 1992. Aliás, uma de suas propostas artísticas mais radicais era a de fazer da sua retirada do mundo uma intervenção artística, isto é, tinha a intenção de elevar a morte ao nível performático máximo. Apesar disso, a transgressão de Schwanke não o tornou um maldito, um reconhecido somente pelos pósteros. Sua carreira de artista plástico foi profícua e bem reconhecida em vida.

            Outro ponto a ser ressaltado é o fato de ele ter sido um artista que nasceu numa cidade provinciana e que sempre provocou o provincianismo de sua cidade. Suas torres de baldes, seus linguarudos, sua cobra coral de plástico são exemplos de uma desordem que o artista trazia à cidade que cultuava (e cultua) a utilidade do objeto, mas não conseguia (não consegue) ver o quanto um objeto deslocado de seu uso poderia se tornar também um evento estético. Sabemos todos que essa discussão é longa, atravessou o século, teve em artistas como Marcel Duchamp, René Magritte ou Andy Warhol os seus baluartes. Schwanke é dessa linhagem de artistas provocadores que está o tempo todo questionando conceitos estáticos e solidificados, sobretudo, a respeito do próprio fazer artístico. Esses questionamentos, vistos em suas obras, são diversos, amplos, causam comoção e desordem, mexem com o status quo e com a segurança bem linha reta dos provincianos.

            Vinte e dois anos depois de sua morte, o nome Luiz Henrique Schwanke foi institucionalizado, suas experiências estéticas entraram naquele jogo que o sistema econômico das artes costuma fazer: assimilar a transgressão, tornar grife o que era ruptura, claro, sempre mantendo ainda uma margem de choque, de imprevisibilidade, margem na qual a criação estética pode respirar, pode causar ainda seus terremotos, suas agudezas, suas desordens nas províncias que as pessoas carregam dentro. Assim, à parte toda a institucionalização do nome, da grife Schwanke, ainda resta um espaço no qual quem resolve criar outro objeto artístico, a partir da obra de Schwanke, deveria trabalhar. Infelizmente, não foi o que aconteceu com o espetáculo Interferências Schwanke da Cia. VAi!, que sob a direção de Raphael Vianna propôs um revisitamento da produção poética e estética de Schwanke. O espetáculo estreou dia 28 de novembro no Galpão de Teatro da  Ajote, em Joinville, apresentando-se também nos dias 29 e 30. De acordo com a sinopse, trata-se de um “espetáculo performativo”. Assim, temos em cena os atores Alex Maciel, Jackson Amorim, Jackson Silva e Marlon Zé se desdobrando em quatro Schwankes e performando seu fazer criativo.

            Há referências às principais obras do artista, bem como o texto dito pelos atores são algumas ideias teóricas de Schwanke, sempre muito descontextualizadas, diga-se de passagem. A dramaturgia criada para o espetáculo é um repetir inócuo de frases importantes e caras à obra do artista, no entanto, da forma como exploradas acabam por fazer com que o espectador saia do teatro com ideias opostas à do próprio Schawanke, como por exemplo a repetição constante da frase  “a arte é qualquer coisa” ou ideias sobre a questão do rebuscamento em arte. Há que se ressaltar que a obra em questão é uma obra rebuscada, de difícil apreensão imediata e que quebra com todos os parâmetros convencionais da visualidade, portanto, e uma obra altamente elaborada e permeada de certo rebuscamento conceitual. O curioso é que o grupo opta por insistir nestes dois pontos sem avançar, sem amarrar a fala do artista com o objeto estético que ele apresenta, entrando, o próprio espetáculo, numa contradição conceitual absurda, pois ele próprio se propõe, embora não alcance em nenhum momento, a navegar no limite da radicalidade.

            No palco também estão tês músicos que fazem a trilha sonora ao vivo e que pouco contribuem para a fala visual de Schwanke. A iluminação é o aspecto técnico que mais se destaca. Pensando que um dos projetos principais de Schwanke era fazer uma escultura de luz, o conceito de iluminação desenvolvido pelo diretor e executado por Flávio Andrade chama atenção, mas não consegue equilibrar a deficiência dos demais elementos que compõe o trabalho. A frieza com que o texto de Schwanke é manipulado, as saídas simplórias para cada cena, a pretensão de parecerem pós-modernos, conceituais, a falta de percepção do que a obra de Schwanke transgrediu, a ausência completa de qualquer sentimento, a obviedade dos gestos, das metáforas, o uso superficial de conceitos deleuzianos como repetição, ou a famosa desconstrução, proposta por Derrida, e que virou sinônimo de se destruir para construir algo no lugar, enfim, uma salada estética e filosófica que ao tentar trazer à cena a obra e o processo criativo de Schwanke, acaba por afastá-los da cena.

            Nada menos Schwanke do que a cena final, em que depois de derrubar (novamente, sem ação, sem presença performativa e sem emoção) pilhas de baldes, entra a voz de Schwanke e a sua fotografia projetada no telão. Recurso didático que toca as raias da pieguice e do colegial. O espetáculo chega a cometer erros primários. Um deles é a questão do espaço. É sabido que a arte teatral é a arte da ocupação do espaço por excelência. E não é que o grupo optou por fazer algumas cenas no chão sem considerar que o espectador não conseguirá assisti-las? Sim, todas as cenas ocorridas no chão são visíveis apenas para as três primeiras fileiras do teatro. As soluções óbvias e fáceis não param. Em uma cena um dos atores vai para o microfone e repete a palavra “vazio”, após isso segue ao fundo do palco e abre três galões vazios e os derruba no chão, numa multiplicidade de signo inócua e sem teatralidade alguma.

            Interferências Schwanke (nos perdoem o trocadilho) é um espetáculo que pouco interfere tanto na obra do homenageado, quanto na própria cidade, a qual Schwanke tanto quis admoestar com suas esculturas e quadros pintados sobre jornais velhos. Trata-se de um espetáculo que não captou aquilo que mantém a obra de Schwanke atual: a ousadia estética, a vontade de ruptura, o jogo contumaz entre o que é arte e o que não é arte, a transformação de materiais banais ou até mesmo incorpóreos como a luz em obras capazes de reverberar dores, agonias, niilismos, sensações de desencaixe e de desordem. Isso está na experiência criativa de Schwanke, mas não foi trazida para o espetáculo performativo da Cia. VAi! E Schwanke tem razão em dizer que todo rebuscamento que não esteja em busca de novos significados se torna algo que nada significa. O espetáculo acaba sendo, justamente, este arremedo de rebuscamento sem que haja uma linguagem que permeie o caos e permita que ele seja apreendido e que pulse no palco, e por consequência, atinja o espectador e reverbere para fora da quarta parede.

 Jéssica Michels (15)Fotos: Jéssica Michels

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