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Crítica do Espetáculo A história do comunismo…

anjos1A HISTÓRIA É FEITA DE MUITAS HISTÓRIAS

Por Marco Vasques e Rubens da Cunha

 

            Antes de qualquer análise, faz-se preciso dizer que uma das funções da crítica é a de tentar analisar um espetáculo sempre a partir de sua construção, a partir de sua gramática, de seus conceitos e princípios. O crítico, ator, diretor ou qualquer outra pessoa que se propõe a discutir uma obra de arte, tem a obrigação de entrar nela e não o de querer fazer dela aquilo que acredita ser o objeto estético ideal. Se o espetáculo se movimenta dentro do caos, por exemplo, cabe ao crítico identificar a lógica que permeia tal universo. Dito isto, vamos ao que interessa.

Em tempos politicamente polarizados e permeados pelo ódio (tanto à esquerda quanto à direita) uma peça como A história do comunismo contada aos doentes mentais se faz cada vez mais necessária. Ainda mais, quando a montagem consegue atualizar, redimensionar e aprofundar a discussão política e humana presente no texto do romeno Matéi Visniec. Trata-se da montagem da Cia. Anjos Pornográficos, de São Paulo, que se apresentou no 21º Festival Isnard Azevedo.

Com direção de André Abujamra e Miguel Hernandes, a peça conta com 14 atores em cena e nos revela, não apenas uma crítica à forma como o stalinismo fazia sua política, mas como age todo pensamento totalitário: pela idealização utópica, pela imposição da unidade, pelo desbaratamento de qualquer forma transgressora. E, obviamente, a loucura, seja a física, seja a metafórica, ou metafísica, é uma afronta, um enfrentamento aos sistemas opressores de qualquer matriz ideológica.

Eis o que essa montagem critica de forma veemente. E o faz usando o que o teatro tem de melhor a oferecer: um texto ácido, atores em plena forma de seu exercício, direção esmerada que consegue transitar no tênue fio da navalha entre o escracho e o ridículo, entre o chulo e o poético. O limite entre enternecer e enfurecer o espectador. Sim, tudo no espetáculo se apresenta para os nossos dias. Reações de vibração e de ódio, tal qual a vivemos hoje, são perfeitamente compreensíveis, porque estamos num momento histórico em que o totalitarismo é exercido em toda esquina. Sempre temos alguém para nos vigiar, para nos punir, para apontar, sempre vigilantes, os caminhos da suposta existência de uma luz soberana que devemos abraçar, beijar e venerar irrestritamente.

A Cia. Anjos Pornográficos tem uma longa história no teatro, e várias peças no repertório, sempre primando pela pesquisa. Vê-se a força de seu trabalho nessa montagem, sobretudo, no equilíbrio do elenco, no qual, cada um dos atores tem seu momento de centralidade, de, digamos, protagonismo, e nenhum deles diminui a carga tragicômica da cena. Colocar 14 atores em cena, lidar com alguns clichês sobre a loucura, sobre o desejo sexual, sobre arte engajada, sem cair no artificialismo, no pedantismo intelectual ou ficar na superfície do riso fácil, é trabalho raro. Por isso a direção conjunta de André Abujamra e Miguel Hernandez merece tanto destaque. Miguel também faz o personagem do escritor que ensinará o comunismo aos doentes mentais e que acaba aprendendo e apreendendo a loucura.

Impossível não lembrar de Simão Bacamarte, do texto O alienista, de Machado de Assis, em que o personagem se instala na cidade e cria a chamada Casa Verde, local em que arregimentará todo e qualquer ser que tenha um comportamento que Bacamarte considere estranho ou fora do padrão. Poderíamos também lembrar o livro Lágrimas na chuva em que o escritor Sérgio Faraco narra a sua amarga experiência com os camaradas comunistas. Contudo, o espetáculo A história do comunismo contada aos doentes mentais, em dias de intolerâncias exacerbadas, além de apresentar excelentes atores e direção, apresenta e discute o totalitarismo em sua crueza vigente. O trabalho não está discutido filiações e siglas partidárias, mas apresentando o homem naquilo que ele tem de mais cruel, isto é, a capacidade de ser intolerante com o saber e o sabor do outro.

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